Ciborguização dos letramentos: paradigmas, anarquia e a mente-máquina pós-humana

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1807-9288.2026.e109519

Palavras-chave:

Letramento Digital, Letramento em Inteligência Artificial, Letramento Ciborgue, Pós-humanismo, Educação

Resumo

Este artigo versa sobre os conceitos de Letramento Digital e Letramento em Inteligência Artificial, propondo o Letramento Ciborgue como uma leitura anárquica e pós-humana dessas práticas educativas. Metodologicamente, o estudo fundamenta-se em revisão bibliográfica e análise conceitual. A análise parte da compreensão de que o LD, consolidado nas últimas décadas como prática social voltada à criticidade e à competência multimodal, encontra limites diante das transformações instauradas pela emergência das inteligências artificiais generativas. O Letramento em IA surge, então, como resposta ética e pedagógica, buscando integrar a IA aos processos educativos de modo crítico, responsável e sustentável. No entanto, ao manter o humano como centro do conhecimento e da decisão, este ainda reproduz a ontologia antropocêntrica que estrutura o pensamento moderno. A partir das contribuições de autores como Kuhn (2013), Feyerabend (2007), Haraway (2000), Hayles (1999), Marchesini (2010), Latour (2021) e XXX (2024; 2025), argumenta-se que as práticas de letramento contemporâneas exigem uma revisão epistemológica que reconheça a cognição como fenômeno distribuído entre humanos e não humanos. Conclui-se que o Letramento Ciborgue não apenas amplia o escopo dos letramentos anteriores, mas inaugura um modo de pensar a educação como ecologia de inteligências, na qual aprender implica corresponder e coexistir com o outro, biológico ou maquínico, em uma rede de práticas sociais interdependentes.

Biografia do Autor

Renan Monezi Lemes, Universidade do Estado de Mato Grosso

Doutorando e Mestre em Linguística pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) da Universidade do Estado de Mato Grosso. Graduado em Licenciatura plena em Letras- Português/Inglês pela Universidade do Estado de Mato Grosso. Desenvolve pesquisa na área de Linguística Aplicada, com interesse em Análise Dialógica do Discurso, Teoria da Compexidade e dos Sistemas Dinâmicos Complexos, Português como Língua da Acohlimento-PLAc , Linguagem, Tecnologia e Ensino e Linguística Aplicada pós-humana. Membro do grupo de pesquisa CNPq Linguagem, Tecnologia e Contemporaneidade em Linguística Aplicada (LINTECLA). Professor Efetivo do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico no Instituto Federal de Mato Grosso, lotado no campus de Alta Floresta.

Referências

BARAD, Karen. Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning. Durham: Duke University Press, 2007.

BAWDEN, D. Origins and concepts of digital literacy. New York: Peter Lang, 2008. p. 17-32.

BENNETT, J. Vibrant matter: A political ecology of things. Durham, NC: Duke University Press, 2010.

BRAIDOTTI, Rosi. The Posthuman. Cambridge: Polity Press, 2013.

REDA, R; TORRENTES, G. C. Letramento em IA: confluência entre letramentos digitais, críticos e práticas de interação com tecnologias generativas. Texto Digital, Florianópolis, v. 21, n. 1, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/textodigital/article/view/106803. Acesso em 24 out. 2025.

BUZATO, M. E. K. Letramentos digitais e formação de professores. São Paulo: Portal Educarede. 2006. Disponível em: http://www.unilago.com.br/arquivosdst/24983MarceloBuzato%20-%20letramento%20digital%20e%20formacao%20de%20profs%20@.pdf. Acesso em: 24 de out. 2025.

CESARINI, P. Computers, technology and literacies. Journal of Literacy and Technology, v. 4, 2004. Disponível em: http://www.literacyandtechnology.org/v4/pfvs/pfv_cesarini.htm. Acesso em: 10 maio 2006.

DI FELICE, M. A cidadania digital: a crise da ideia ocidental de democracia e a participação nas redes sociais. São Paulo: Paulus, 2020.

DQ INSTITUTE. DQ Global Standards Microcredentials (GSM): A Global Interoperable Codification of Digital Skills for AI and Sustainability. 2023. Disponível em: https://www.dqinstitute.org/wp-content/uploads/2023/11/DQ-GSMWhitepaper.pdf. Acesso em: 28 jan. 2025.

DUDENEY, G.; HOCKLY, N.; PEGRUM, M. Letramentos digitais. Tradução: Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.

FEYERABEND, Paul. Contra o método. 3. ed. São Paulo: Unesp, 2007.

FREITAS, M. T. Letramento digital e formação de professores. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 26, n. 3, p. 335-352, dez. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/edur/a/N5RryXJcsTcm8wK56d3tM3t/?lang=pt. Acesso em: 24 de out. 2025.

GILSTER, P. Digital literacy. New York: John Wiley & Sons, Inc., 1997.

HARAWAY, D. A Cyborg manifesto: science, technology, and socialist-feminism in the late twentieth century. Socialist Review, 15(2), 65-108, 1985, (Trad. Bras. Tomaz Tadeu. In D. Haraway, H. Kunzru & T. Tadeu, Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano (p. 65-108). Belo Horizonte: Autêntica, 2000).

HAYLES, N. Katherine. How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics. Chicago: The University of Chicago Press, 1999.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.

LATOUR, B. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica (2ª ed.). Rio de Janeiro: Editora 34, 2021.

LEE, K. Inteligência artificial: como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Tradução de Marcelo Barbão. 1 ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.

MARCHESINI, R. Contra a pureza essencialista, rumo a novos modelos de existência. In M. PIREDDU; M. DI FELICE (Orgs.), Pós-humanismo: as relações entre o humano e a técnica na época das redes (p. 163-183). São Caetano do Sul: Difusão Editora, 2010.

MEY, J. L. As vozes da sociedade: letramento, consciência e poder. Tradução de Maria da Glória de Morais. DELTA, v. 14, n. 2, p. 331-338. 1998.

PENNYCOOK, Alastair. Posthumanist Applied Linguistics. London: Routledge, 2018.

RIBEIRO, A. E. F. Navegar lendo, ler navegando. Notas sobre a leitura de jornais impressos e digitais. Belo Horizonte: InterDitado, 2009. (Coleção Indie).

ROCHE, Thomas Bernard. Assessing the role of digital literacy in English for Academic Purposes university pathway programs. Journal of Academic Language and Learning, [S. l.], v. 11, n. 1, p. A71-A87, 2017. Disponível em: https://journal.aall.org.au/index.php/jall/article/view/439. Acesso em: 24 oct. 2025.

ROJO, R. Letramentos Múltiplos, Escola e Inclusão Social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

SANTAELLA, L. Humanos hiper-híbridos: linguagens e cultura na segunda era da internet. São Paulo: Paulus, 2021. Coleção Comunicação.

SCHMIDT, E. HUTTENLOCHER, D. KISSINGER, H. A Era da IA. Alta Curt Editora. Rio de Janeiro, 2023.

SELFE, C. L. Technology and literacy in the twenty-first century: the importance of paying attention. Chicago: Southern Illinois University Pres, 1999.

STREET, B. Literacy in theory and practice. New York: Cambridge University Press, 1984.

SOARES, M. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educação e Sociedade, Campinas, v. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002.

SOUZA, V. V. Soares. Letramento digital e formação de professores. Revista Língua Escrita, n. 2, p. 55-69, dez. 2007.

UNESCO. Recomendação sobre a ética da inteligência artificial. Paris: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2022. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137_por. Acesso em: 17 jan. 2025.

UNESCO. Marco referencial de competências em IA para estudantes. Paris: UNESCO, 2025a. Disponível em: https://www.unesco.org/pt/articles/marco-referencial-de-competencias-em-ia-para-estudantes. Acesso em: 27 jan. 2025.

UNESCO. Marco referencial de competências em IA para professores. Paris: UNESCO, 2025b. Disponível em: https://www.unesco.org/pt/articles/marco-referencial-de-competencias-em-ia-para-professores. Acesso em: 27 jan. 2025.

XAVIER, A. C. Letramento digital: impacto das tecnologias na aprendizagem da Geração Y. Calidoscópio. Disponível em: https://www.professores.uff.br/screspo/wp-content/uploads/sites/127/2017/09/PSI_P2_artigo8.pdf. Acesso em: 23 out 2025.

Downloads

Publicado

2026-09-03