Ler em voz alta: práticas de ensino no secundário e a formação cultural das elites brasileiras no século XX

Autores

  • Rejane Rodrigues Almeida de Medeiros UFSCar - Universidade Federal de São Carlos
  • Luzmara Curcino Ferreira UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8420.2021e71360

Palavras-chave:

História do ensino da leitura, Ensino secundário, Leitura em voz alta, Livros escolares, Eloquência

Resumo

Neste artigo, nosso objetivo é analisar representações do ensino da leitura nas aulas de português do curso secundário brasileiro, manifestas em livros escolares editados na primeira metade do século XX, de modo a depreender as práticas de leitura que eram priorizadas, tendo em vista a função sociocultural, distintiva e hierarquizadora da escola secundária nesse período, destinada prioritariamente às elites dirigentes do país. Subsidiados por princípios e reflexões da História Cultural da leitura e a partir de um corpus constituído com obras didáticas adotadas no secundário, a saber, Céu, terra e mar (1914), de Alberto de Oliveira, Manual de califasia e arte de dizer (1930), de Silveira Bueno, O idioma nacional na escola secundária (1935), de Antenor Nascentes, e Português através de textos (1969), de Magda Soares, constatamos que no curso secundário brasileiro fomentavam-se especialmente práticas de ensino da leitura em voz alta. Essa leitura oralizada dispunha de atenção especial nas recomendações dessas obras didáticas, estabelecendo uma aproximação muito estreita com a tradição da arte retórica, com o objetivo de desenvolver habilidades específicas relativas ao domínio da eloquência, que representava um dos atributos essenciais na formação dos filhos da elite nacional, de início agrária e progressivamente urbanizada, nesse período de formação e consolidação do Estado brasileiro.

Biografia do Autor

Rejane Rodrigues Almeida de Medeiros, UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo, mestrado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, e doutorado em Linguística também pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é pesquisadora do LIRE - Laboratório de estudos da Leitura, sediado na UFSCar.

Luzmara Curcino Ferreira, UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

Graduada em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia (2001), mestre (2003) e doutora (2006) em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/FCLAr), com estágio de doutorado, em 2005, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS/Paris). Realizou pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, de 07/2016 a 07/2017, e na Université Versailles Saint Quentin en Yvelines - UVSQY/Paris, de 08/2017 a 01/2018. Professora associada no Departamento de Letras na Universidade Federal de São Carlos e atua nos cursos de Licenciatura em Letras e Bacharelado em Linguística. Atua ainda no Programa de Pós-Graduação em Linguística desta mesma instituição, nas linhas de pesquisa "Ensino e Aprendizagem de Línguas" e "Linguagem e Discurso". Coordena o LIRE - Laboratório de estudos da Leitura, desde 2009. Atua/ou nos programas PIBID (como coordenadora da área de Letras de 2013 a 2016 e 2018 a 2019), PRODOCÊNCIA (2014), PNAIC (membro da equipe gestora de 2016 a 2017), PLI (membro da equipe de professores coordenadores de 2011 a 2015 e de 2017 aos dias atuais). Atua principalmente na área de formação inicial e continuada de professores de língua portuguesa e se dedica à pesquisa em análise de discursos sobre a leitura e sobre o leitor brasileiro.

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Publicado

2021-05-21