Chamada aberta Dossiê “Infâncias, racismos e educação infantil”

2022-05-06

A proposta do dossiê Infâncias, racismos e educação infantil se dá por considerar que os contextos instituicionais de educação infantil, além da família, do(a)s amigo(a)s e de outras relações mais próximas, constituem-se espaços privilegiados onde se explicitam alguns dos critérios residuais diferenciadores da sociedade, a um nível macro, que qualificam e desqualificam as pessoas por meio de dispositivos sociais (como o grupo étnico, o gênero, o poder aquisitivo ou a faixa etária,) e culturais (desempenho linguístico, contato com outras realidades no mundo, ou acesso a brinquedos, à arte e à cultura, em sentido mais geral). Educar e cuidar das crianças no contexto atual, repleto de diversidades, mas que continua a criar barreiras face a alguns exemplos dessa diversidade, suscita assim um grande desafio para professora(e)s e os educadore(a)s, mas também para pais, mães e profissionais de educação.

São conhecidos, e têm sido largamente estudados, alguns dos modos de estruturação racista da sociedade brasileira, enriquecida por diferentes grupos étnicos, que a caracterizam em termos sociais e culturais, mas que constituem também um dos seus maiores desafios. No entanto, a infância enquanto categoria na estrutura social (um momento estrutural e estruturador do indivíduo) e, especificamente, relacionada com a educação ao nível desta faixa etária, tem sido pouco estudado no que se refere à discriminação étnica e racial. Para tal contribui: 1. a dificuldade de acesso (que carece de autorizações específicas) às crianças, que é muitas vezes mediatizado pelos pais, mães, profissionais de educação, professore(a)s, educadore(a)s e formadore(a)s; 2. a tenra idade das crianças que não lhes permite ainda lidar com algumas situações do quotidiano educativo e escolar; 3. a existência escassa de manuais ou atividades que despoletem uma melhor caracterização e descrição da sociedade e uma adequada transmissão de ferramentas para lidar com a diversidade; 4. a preparação, por vezes, incipiente do(a)s educadore(a)s e professore(a)s, mas também dos pais, mães e profissionais; 5. a falta de diálogo entre a creche/escola e a famílias e a falta de diálogo dentro de algumas famílias, assoberbadas amiúde com outros aspetos quotidianos, deixando a abordagem destes fenómenos apenas para os momentos em que suscitam problemas mais graves.

O dossiê tem por objetivo publicar resultados de pesquisas, em forma de artigos e/ou em forma de elaborações conceituais teóricas e metodológicas que contribuam para uma melhor compreensão dos dispositivos, subjetivos e objetivos, relativos a manifestações de racismo(s) e/ou discriminação étnica e racial durante a infância e/ou no contexto da educação infantil: manuais abordados; atividades formativas, pedagógicas e de lazer; vivências quotidianas no contexto escolar – relação entre o(a)s professora(e)s/educadore(a)s e as crianças e relações entre as próprias crianças.

As contribuições devem concorrer para identificar este problema no contexto infantil, mas também e, sobretudo, para ajudar a pensar o papel da educação infantil hoje e a sua responsabilidade na formação de pessoas, tendo em conta fatores que potenciam a discriminação (“raça”, etnia, gênero, classe social, geração, sexualidade, religião, crenças, origem, local de residência, entre outros). Por outro lado, e em complemento ou articulação com o contexto educativo, solicitamos o envio de propostas que considerem o contributo do contexto familiar e de outras relações sociais e interpessoais que ajudem a pensar o fenómeno da discriminação étnica e racial – como identificá-lo, como enfrentá-lo e como evitá-lo.

Organizadores

Doutor Christian Muleka Mwewa, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS): Coordenador e professor no Programa de Pós-Graduação em Educação-Mestrado (PPGEdu/CPTL) e Professor no Programa de Pós-Graduação em Educação-Mestrado e Doutorado (PPGEdu/CG) ambos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Sociedade (UFMS/CPTL). Doutor em Ciências da Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2010), com estágio doutoral na Université de Paris I Panthéon-Sorbonne (2008). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7079-5836 ; C.V.Lattes: http://lattes.cnpq.br/9098713298204255 . E-mail: christian.mwewa@ufms.br

Doutora Patrícia Ferraz de Matos, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa): Antropóloga, Investigadora Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa (UL). Membro do corpo docente do Curso de Doutoramento em Antropologia (DANT) do ICS-UL, desde 2013. Editora Associada de Anthropological Journal of European Cultures (2020-2022). Coordenadora da Europeanist Network da EASA (European Association of Social Anthropologists (2020-2022). Membro Correspondente, em Portugal, da History of Anthropology Network (HOAN) da EASA, desde 2019. Autora de The Colours of the Empire: Racialized Representations during Portuguese Colonialism (Berghahn Books, 2013). E-mail: patricia_matos@ics.ulisboa.pt