Percepções de pessoas com transtornos mentais sobre o processo de Recovery: Relato de um grupo focal

Autores

  • José Alberto Orsi Diretor da Associação Brasileira de Amigos, Familiares e Portadores de Esquizofrenia – ABRE SP e Mestrando em Saúde Mental da Unifesp
  • Tiago Ribeiro da Silva EPM - UnifespCentro Universitário Uniamérica
  • Norha Vera San Juan Instituto de Psiquiatría, Psicología e Neurociências - King's College London
  • Walter Ferreira de Oliveira Ph.D., Professor titular, Universidade Federal de Santa Catarina

Palavras-chave:

saúde mental, atenção psicossocial, reforma psiquiátrica

Resumo

As abordagens baseadas em recovery vêm sendo cada vez mais utilizadas e pesquisadas no campo da Saúde Mental e Atenção Psicossocial, orientando serviços de saúde mental em diversos países. No Brasil, nos últimos anos, percebe-se uma presença maior na literatura acadêmica de pesquisas quantitativas e qualitativas sobre recovery e assuntos correlatos. Este artigo apresenta os resultados de um Grupo Focal, conduzido na cidade de São Paulo, no sul do Brasil, com apoio do Programa de Esquizofrenia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. O grupo contou com oito frequentadores da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia e teve como principal objetivo investigar a compreensão dos participantes sobre alguns conceitos e elementos considerados importantes, segundo a literatura, relacionados ao processo de recovery. O conteúdo transcrito foi analisado segundo as seguintes categorias conceituais: problema mental e transtorno mental; redes de apoio; recuperação (subdividida em: clínico existencial, melhorar, superar-se e sentir-se realizado) e serviços de saúde mental. No discurso dos participantes foi possível identificar auto e hetero estigma, principalmente através de denominações e termos que reforçam de maneira negativa suas identidades e o estabelecimento de relações sociais. Identificou-se na categoria de serviços de saúde mental sentimentos ambivalentes frente a vivências ligadas a formas de cuidado desumanizado e estigmatizante. Perceberam-se percepções positivas de cuidados recebidos no âmbito dos serviços, identificados como referências de apoio, destacando-se aspectos positivos presentes nas relações com profissionais. Outro elemento importante, presente nas narrativas, foi o reconhecimento da presença do facilitador com experiência vivida, atuando nos grupos de apoio de pares. Estes facilitadores foram reconhecidos como possíveis profissionais a serem inseridos nos serviços de saúde mental.

Biografia do Autor

Tiago Ribeiro da Silva, EPM - UnifespCentro Universitário Uniamérica

Tiago Ribeiro da Silva - Graduado em Terapia Ocupacional pelo Centro Universitário São Camilo. Especialização em Saúde Mental pela Irmandade de Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Mestre em Ciências da Saúde, pelo Programa de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP). Professor e Gestor Assistencial do Centro Integrado de Saúde do Centro Universitário UniAmérica - Foz do Iguaçu.

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Publicado

2021-07-15

Como Citar

ORSI, J. A.; DA SILVA, T. R.; SAN JUAN, N. V.; OLIVEIRA, W. F. de. Percepções de pessoas com transtornos mentais sobre o processo de Recovery: Relato de um grupo focal. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental/Brazilian Journal of Mental Health, [S. l.], v. 13, n. 36, p. 175-200, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/76856. Acesso em: 21 out. 2021.

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