Desinformação de gênero no Twitter/X: estratégias e mecanismos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1518-2924.2026.e106848

Palavras-chave:

Desinformação de gênero, Twitter/X, Governamentalidade algorítmica, Estereótipos de gênero

Resumo

Objetivo: identificar os mecanismos e estratégias utilizados na disseminação de desinformação de gênero, a partir da interpretação dos elementos-usuários/interagentes, formatos, e formas que constituem o contexto de desinformação de gênero.

Método: A coleta de dados foi iniciada por meio da busca avançada, utilizando os descritores e os nomes das 12 deputadas federais mais votadas nas eleições de 2022 combinados com os termos "fake news", boleando “and” e "desinformação". Esse procedimento foi realizado no período de julho de 2022 até 30 de outubro de 2022.  Adicionalmente, foram consultadas agências de checagem, como a Lupa e Aos Fatos, visando identificar quais desinformações foram verificadas durante esse intervalo de tempo.

Resultado: Em síntese, identificamos diversos pontos centrais. A desinformação de gênero manifesta-se por meio de diversos formatos, incluindo imagens manipuladas, textos distorcidos e vídeos editados ou recortados. Observa-se que homens predominam como atores na disseminação dessa desinformação. Pseudônimos são frequentemente empregados, conferindo um véu de anonimato aos perpetradores, o que dificulta processos de responsabilização. O ciclo da desinformação envolve várias etapas interconectadas, começando pela produção do conteúdo falso, seguido por sua difusão por meio das redes sociais digitais. Inicialmente, a disseminação ocorre em aplicativos de mensagens como o WhatsApp, através de áudios, textos e vídeos. Em seguida, a desinformação se expande para plataformas como o Twitter/X, onde ganha tração com a adição de links para sites falsos, conferindo-lhe uma aparência de credibilidade. Posteriormente, alcança redes sociais digitais mais visuais, como YouTube, Instagram e Facebook, onde imagens e fotos reforçam a mensagem enganosa, ampliando ainda mais seu alcance e impacto. A desinformação de gênero questiona frequentemente a idoneidade e competência das mulheres, além de difamar e distorcer suas conquistas. Essa natureza insidiosa visa minar a imagem e a credibilidade das mulheres na esfera pública. Os efeitos da desinformação de gênero incluem a propagação de estereótipos prejudiciais, impactando negativamente a percepção pública das mulheres e suas realizações.

Conclusões: O Twitter/X facilita a participação política, mas enfrenta desafios como o acesso limitado à internet em países como o Brasil. A pesquisa revelou dificuldades devido a mudanças na plataforma, exigindo coleta manual de dados. Além disso, a análise mostra que a desinformação de gênero usa estereótipos para prejudicar as mulheres, também afetando outros grupos como LGBTQIA+. O discurso de ódio amplifica os efeitos negativos nas redes sociais. A governamentalidade algorítmica, baseada em big data, molda comportamentos e exacerba desigualdades sociais.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Anna Raquel de Lemos Viana, Universidade Federal de Pernambuco

Doutora em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCI/UFPE). Mestra em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI/UFPB), Especialista em Ciência de Dados e Big Data Analytics pela Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP). Graduada em Relações Públicas pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Bolsista CAPES. Membro do grupo de pesquisa Estudos Epistemológicos em Informação EEI- Atualmente tem interesse de pesquisa nos seguintes temas: Empoderamento feminino, Igualdade de gênero, Memória e Redes sociais, Desinformação e Humanidades Digitais. 

Májory Karoline Fernandes de Oliveira Miranda, Universidade Federal de Pernambuco

Professora Associada 1, do Dept. de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutorado em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais/Ciência da Informação (2010) na Universidade do Porto (FLUP), Portugal. Bacharel em Biblioteconomia (2004) na Universidade Federal de Pernambuco. Membro permanente do PPGCI. Desenvolve pesquisas nas áreas de Fundamentos e Epistemologia da Ciência da Informação; Humanidades Digitais com ênfase em memória, encontrabilidade, práticas e infodemia.  

Referências

ANJOS, Júlia Cavalcanti Versiani dos. “As garras do feminismo”: discurso de ódio antifeminista no Facebook eo senso de urgência controlada. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 45, p. e2022119, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/interc/a/HJWF8BGsZzKZ3TMLcVGQXXC/?format=html&lang=pt. Acesso em: 20 set. 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1809-58442022119en

BARBOSA, Marinalva. Comunicação e desinformação: textos, diálogos e conversas em cenários reflexivos. In: PRATA, N.; JACONI, S.; GABRIOTI, R.; NASCIMENTO, G.; ANDRÉ, H.; MATOS, S. S. (orgs). Comunicação e ciência: reflexões sobre a desinformação. São Paulo: Intercom, 2012. p. 1-20. Disponível em: https://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/arquivos/comunicacao-e-ciencia-reflexoes-sobre-a-desinformacao050922.pdf. Acesso em: 20 set. 2025.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 set. 2025.

BRASIL. Senado Federal. Agência Senado. Redes sociais, notícias falsas e privacidade na internet. Brasília, DF: Senado Federal, 2019. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/603465/DataSenado_Redes%20Sociais_11-2019.pdf?sequence=2&isAllowed=y. Acesso em: 20 set. 2025.

CAETANO, Josemar Alves; MAGNO, Gabriel; GONÇALVES, Marcos; ALMEIDA, Jussara; MARQUES-NETO, Humberto T.; ALMEIDA, Virgílio. Characterizing attention cascades in whatsapp groups. In: ACM Conference on Web Science, 10., 2019, Boston. Proceedings [...]. Association for Computing Machinery: New York, 2019. p. 27-36. Disponível em: https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/3292522.3326018 Acesso em 20 set. 2025. DOI: https://doi.org/10.1145/3292522.3326018

CALDIN, Clarice Fortkamp; BLATTMANN, Ursula. (2020). Letramento digital: e-books interativos para crianças. ÁGORA: Arquivologia em debate, Florianópolis, v. 30, n. 61, p. 680–702, 2020. Disponível em: https://agora.emnuvens.com.br/ra/article/view/937. Acesso em: 20 set. 2025.

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos domicílios brasileiros: TIC Domicílios 2023. A - Domicílios que possuem equipamentos TIC. Disponível em: https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2023/domicilios/A/. Acesso em: 20 set. 2025.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MACHADO, Carla. Pânico moral: para uma revisão do conceito. Interações: Sociedade e as novas modernidades, Coimbra, v. 4, n. 7, 2004. Disponível em: https://interacoes-ismt.com/index.php/revista/article/view/125. Acesso em 20 set. 2025.

MELLO, Patrícia Campos. A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. São Paulo: Companhia das letras, 2020.

MISKOLCI, Richard. Batalhas morais: política identitária na esfera pública técnico-midiatizadora. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2021, 112p.

ORTNER, Sherry B. Is Female to Male as Nature Is to Culture? In: Rosaldo, Michelle Zimbalist; Lamphere, Louise (org.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University Press, 1974. (Publicado em português em 1979, conforme citado).

PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. 4. ed. Campinas: Pontes, 1995.

PRIORE, Mary Del. História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1989.

RADDE, Augusto. Corpo e resistência (s) na constituição do sujeito: O discurso do corpo na Marcha das Vadias. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE LINGUAGEM E ENSINO DE LÍNGUAS, 7., 2013, Pelotas. Anais [...]. Pelotas: UCPEL, 2013. Disponível em: https://ucpel.edu.br/senale/cd_senale/2013/Textos/trabalhos/104.pdf. Acesso em 20 set. 2025.

RECUERO, Raquel. Atos de ameaça à face e à conversação em redes sociais na internet. In: PRIMO, Alex (Org.). Interações em Rede. Porto Alegre: Sulina, 2013. p. 51-70. Disponível em: https://falaminhalingua.com/wp-content/uploads/2018/09/atos_de_ameaca_a_face_e_a_conversacao_em1.pdf. Acesso em 20 set. 2025.

RECUERO, Raquel; BASTOS, Marco; ZAGO, Gabriela. Análise de redes para mídia social. Porto Alegre: Sulina, 2015.

SILVA, Thais Helena; VILELLA, Lilian Cristina. Violência política de gênero impactos e desafios para a paridade. Revista Insted de Direito (REDIR), Campo Grande, v. 2, n. 1, 2025. Disponível em: https://periodicos.insted.edu.br/redir/article/view/168. Acesso em 20 set. 2025. DOI: https://doi.org/10.62559/redir.v2i1.168

UNESCO. Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores. Paris: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2021. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000220418. Acesso em: 7 ago. 2025.

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policymaking. Strasbourg: Council of Europe, 2017. Disponível em: https://rm.coe.int/information-disorder-toward-an-interdisciplinary-framework-for-researc/168076277c. Acesso em: 7 ago. 2025.

Publicado

17-12-2025

Como Citar

VIANA, Anna Raquel de Lemos; MIRANDA, Májory Karoline Fernandes de Oliveira. Desinformação de gênero no Twitter/X: estratégias e mecanismos. Encontros Bibli: revista eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, Florianópolis/SC, Brasil, v. 31, p. 1–19, 2025. DOI: 10.5007/1518-2924.2026.e106848. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/106848. Acesso em: 13 jan. 2026.