Michel Foucault e Edward Said: discurso, arquivo e autoria em Orientalismo (1978)
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e112412Parole chiave:
Estudos pós coloniais, Discursividade, Formação discursiva, Análise do discursoAbstract
Orientalismo (1978), de Edward Said, consolidou-se como uma obra central para compreender os modos pelos quais o “Oriente” foi historicamente produzido no Ocidente como objeto de saber, representação e administração política, sendo frequentemente associado ao gesto inaugural dos estudos pós-coloniais. Ao criticar a naturalização da dicotomia Oriente/Ocidente, Said define o orientalismo como um conjunto articulado de enunciados, instituições e formas de autoridade que tornam o Oriente representável, inteligível e governável. Assim, a análise desloca-se do exame de imagens isoladas ou de supostos equívocos de representação para a investigação das condições históricas de produção discursiva que estabilizam diferenças culturais como essências e sustentam projetos coloniais e imperiais. Este trabalho examina a interlocução específica entre Said e Michel Foucault, tomando Orientalismo como objeto privilegiado para observar o funcionamento das categorias foucaultianas de “discurso” e “arquivo”, formuladas em A arqueologia do saber. Argumenta-se que Said mobiliza o conceito de discurso para descrever regularidades enunciativas dispersas, mas sistematicamente articuladas, que atravessam literatura, ciência, política, economia e historiografia, constituindo o orientalismo como uma formação discursiva relativamente estável. De modo correlato, evidencia-se que Said opera uma noção de arquivo compatível com a definição foucaultiana de arquivo como “lei do que pode ser dito”, compreendendo-o como princípio de acumulação e memória que organiza repertórios e regimes de verdade sobre o Oriente ao longo do tempo. Por fim, discute-se o ponto de afastamento decisivo entre ambos: enquanto Foucault concebe o autor como função histórica variável e descentrada da individualidade empírica, Said reinscreve a responsabilidade intelectual e política do autor individual no funcionamento do discurso orientalista, enfatizando a inscrição histórica e institucional da produção intelectual.
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