Pós-Graduação e Geopolítica do Conhecimento:
A Formação de Sociólogos Brasileiros no Exterior durante a Ditadura Militar (1964-1985)
DOI:
https://doi.org/10.5007/2175-7984.2025.e98561Resumo
Este artigo aproxima a história das ciências sociais brasileiras das discussões sobre geopolítica do conhecimento ao analisar a formação pós-graduada de sociólogos brasileiros no exterior durante a ditadura militar. Com base em dados de 176 pesquisadores, examinam-se países de destino, financiamentos e temas de pesquisa. Entre 1964 e 1975, os EUA se apresenta como principal destino, com destaque inicial para o apoio contínuo da Fundação Ford seguido, posteriormente, da ascensão francesa após 1975. Embora o Estado tenha buscado maior autonomia científica a partir de 1975, com o fortalecimento da CAPES e do CNPq a partir do I PNPG, a dependência institucional com o exterior persistiu. Entre os temas de pesquisa destacam-se modernização, desenvolvimento e sociologia rural, sugerindo de forma indiciária a aderência a uma sociologia da modernização. Compreende-se o campo sociológico nacional como tensionado entre dependência e autonomia, reforçando a importância de compreender sua formação histórica frente às assimetrias globais.
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