Soberania alimentar no Machimbombo e na aldeia: gênero na perspectiva Sul-Sul

Rita Simone Liberato, Laura Moutinho, Isabel Noronha, Brigitte Bagnol

Resumo


Neste artigo são alinhavados olhares das mulheres do eixo Sul-Sul, suas aproximações e
distanciamentos, a partir de categorias de análise que têm como marco a soberania e a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Argumenta-se nessa reflexão acerca da importância da análise de gênero em perspectiva interseccional em dois cenários diversos. O primeiro cenário é a partir do ponto de vista das mukheristas, nome pelo qual são chamadas as mulheres moçambicanas que fazem o comércio entre Maputo (Moçambique) e Johannesburg (África do Sul). O segundo cenário é constituído pelas mulheres da aldeia Cinta Vermelha-Jundiba, que vivem na região do semiárido, no Vale do Jequitinhonha, no Brasil. Observar-se-á como, a partir de panos moçambicanos e sementes brasileiras, essas mulheres trançam suas sobrevivências.


Palavras-chave


Segurança alimentar e nutricional; Relações de gênero; Marcadores sociais da diferença; Mukheristas/Moçambique; Aldeia Cinta Vermelha-Jundiba/Brasil

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n366961

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