Herança colonial confrontada: reflexões sobre África do Sul, Brasil e Estados Unidos

Paulo Sérgio da Costa Neves, Laura Moutinho, Lilia Katri Moritz Schwarcz

Resumo


Em 09 de março de 2015 centenas de estudantes iniciaram um movimento na prestigiosa
University of Cape Town (UCT) para a retirada da estátua de Cecil Rhodes, representante do colonialismo inglês no século XIX, do campus. Nesse mesmo ano, em novembro, estudantes da Princeton University ocuparam a reitoria exigindo que fosse removido de um dos prédios do campus o nome de Woodrow Wilson, defensor da segregação dos negros no sul dos Estados Unidos. Em maio desse ano, a Universidade Federal de Goiás (UFG) foi a primeira universidade do país a implementar reserva de vagas para indígenas, afrodescendentes e deficientes em cursos de pós-graduação. O objetivo deste artigo é compreender e analisar a força desses fenômenos, que são entendidos nessa reflexão como demandas decoloniais com dimensões global e local.


Palavras-chave


Nação; Memória; Decolonização; Universidades; Marcadores sociais da diferença

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DOI: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n366960

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