Da violência obstétrica ao empoderamento de pessoas gestantes no trabalho das doulas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2021v29n162136

Palavras-chave:

Doula, empoderamento, violência obstétrica

Resumo

A partir da realização de entrevistas com doulas de diferentes regiões brasileiras e de uma postura construcionista como suporte epistemológico e metodológico buscamos compreender os sentidos atribuídos às suas experiências e às suas vivências na doulagem e aos contextos relacionais em que se inserem. São citadas algumas das situações de violência com as quais as entrevistadas se deparam no cotidiano da sua atuação e na importância da vinculação entre mulheres para o fortalecimento da autonomia e empoderamento e superação das vulnerabilidades. Como resultado, o artigo aponta que a atuação como doula não apenas traz a possibilidade de empoderamento para a pessoa gestante, por meio do apoio e da informação trazidos pela presença da doula, como também para a própria doula, ao se conectar a outras mulheres com o intuito de enfrentamento das iniquidades com as quais se defronta.

Biografia do Autor

Rodrigo Otávio Moretti-Pires, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva/UFSC

Livre-Docente em Saúde Sexual e Reprodutiva pela Faculdade de Saúde Pública da USP, doutor em Ciências pela EERP/USP, mestre em Sociologia Política pela UFSC, mestre em Saúde Pública pela FMRP/USP, sociólogo, Docente Permanente do PPGSC/UFSC e do Departamento de Saúde Pública/CCS/UFSC.

Daniela Calvo Barrera, Universidade Federal de Santa Catarina

Cientista Social e Mestra em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Santa Catarina.

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2021-07-21

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Artigos