A expansão da preposição para nas ditransitivas do português brasileiro: a perspectiva do modelo de três fatores
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-8420.2025.e100843Palabras clave:
Objeto indireto, Estrutura ditransitiva, Português brasileiro, Modelo dos três fatores, Aquisição, variação e mudançaResumen
No percurso histórico do português brasileiro (PB), documentado nos corpora sincrônicos e diacrônicos, dentro de um cenário comparativo com o português europeu (PE), revelam-se duas propriedades inovadoras na realização morfossintática do objeto indireto (OI) nas ditransitivas. Na sua expressão nominal ocorre a substituição da preposição a - marcador de caso - pela preposição lexical para – ‘O Pedro deu um celular à namorada/deu um celular para a namorada.’ Na sua expressão pronominal de 3ª pessoa ocorre a substituição dos clíticos dativos lhe/lhes, pelos pronominais oblíquos ele(s), ela(s), introduzidos pelas preposições a/para - ‘O Pedro deu-lhe um celular/ deu um celular a/para ela’. O objetivo deste estudo é apresentar uma proposta para o entendimento da seguinte questão: Por que teriam os falantes das variedades do PB, durante os séculos de sua expansão no Brasil, convergido para um sistema gramatical que divergiu crucialmente do input linguístico fornecido pela fala e escrita dos portugueses? A nossa resposta se apoia numa abordagem minimalista da aquisição, variação e mudança tal como delineada no modelo dos Três Fatores (Chomsky, 2005), destacando o input (Fator 2), e aspectos cognitivos gerais na interação do falante com o input linguístico (Fator 3). Assumimos, com base em Roberts (2007), Roberts e Roussou (2003), Biberauer (2018, 2019) e Biberauer e Roberts (2017), os efeitos linguísticos dos vieses cognitivos, a saber: (i) Economia dos traços - Postule o menor número possível de traços formais na abordagem do input; (ii) Generalização do Input - Aproveite ao máximo traços disponíveis na abordagem do input.
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