Chamada N°24- "Usos das artes"

As artes, no sentido amplo (ou seja, como um conjunto de práticas e atividades que concernem diversas modalidades e materiais), embora consideradas disseminadoras de produtos e produções de elevada carga estética, ou intelectual, de todo modo são inseridas em um mercado. As artes produzem mercadorias, e mercadorias não necessárias ou inúteis, ao menos do ponto de vista da sobrevivência física. Elas, portanto, instituem valores, e não somente estéticos, mas de ordens outras. Por exemplo: um valor de troca, um valor de exposição, um valor de culto, um valor trabalho e um valor de uso, pelo menos, todos devidamente mediados e regrados por dispositivos econômicos e jurídicos. A circulação de objetos e produtos artísticos revela-se, assim e ao final, intimamente articulada a políticas concernentes aos seus legítimos modos de uso.

Considerados como mercadorias, os produtos das artes têm sancionada sua reprodução, ou exposição, mediante o pagamento de direitos. Nesse caso, os produtos, tidos como originais, tornam-se propriedades, e são considerados, a partir desse momento, como integrais, finalizados. Daí ser possível frui-los, mas não usufrui-los, no sentido de deles usufruir, ao modo antropofágico, por exemplo. Ou seja, o interdito é com relação a uma prática em que as artes se fazem a partir de uma atuação direta sobre um produto anterior, de uma intervenção direta nele, uma intervenção. Com isso, a integridade ou autonomia pressuposta na situação anterior é colocada em questão, já que os objetos artísticos passam a constituir uma rede de trocas e relações, inclusive com respeito a espaços e domínios considerados não-artísticos. Passam então do estágio de produtos para o de produções, produções comuns, realizadas coletivamente, com o que o vínculo de propriedade é quebrado, levando junto a pretensa originalidade ou gênio do artista.

Resumindo a duas as possíveis posturas que a sociedade ocidental moderna normalmente autoriza, com respeito às artes temos, de um lado, uma sacralização: são objetos intocáveis, autônomos, acabados. Podem ser reproduzidos, ao modo de um ente, mas não em seu ser, sua substância ou sua essência. De outro lado, na medida em que reclamam e motivam intervenções, empréstimos e roubos, a postura é profanatória, ou melhor, coloca-se a necessidade de sacrificar o sacro pressuposto na postura anterior. O próprio conceito tradicional de arte, neste caso, é posto em questão. Exemplos não faltam, e talvez o mais clássico deles seja o de Marcel Duchamp e a ideia dos ready mades, que esvaziam as artes de seu glamour exclusivista e elitista. São dilemas como tais, em seu limite acerca das relações entre a arte e seus usos, que os editores da revista outra travessia lançam a público, como convite à discussão por parte de possíveis interessados em refletir sobre o tema, para conformar a sua edição de número 24, concernente ao segundo semestre de 2017.

Os originais devem ser enviados até o dia 10 de setembro de 2017, em conformidade às normas de publicação da outra travessia, através do site: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/Outra/index

Os artigos serão submetidos à avaliação do conselho de pareceristas da revista.

 

Os editores