Contribuições das produções sobre a complexidade: aportes para a educação científica escolar

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7941.2020v37n2p428

Palavras-chave:

Educação Científica Escolar, Ensino de Física, Dimensões, Complexidade

Resumo

A perspectiva da complexidade anuncia uma forma de pensar e agir frente às situações da realidade que, de modo geral, referem-se a sistemas abertos e dinâmicos. Para buscar aproximações com essa perspectiva e propor sua efetiva incorporação nas ações dos sujeitos, nos parece fundamental considerá-la no processo educacional, por meio de diferentes dimensões: Dimensão Educacional, Dimensão de Ensino-Aprendizagem e Dimensão Epistemológica. Cada uma dessas Dimensões incorpora a complexidade em contextos distintos da educação e formação científica escolar. Elas, ainda em construção, buscam organizar alguns elementos da complexidade que podem mobilizar os sujeitos para uma mudança de paradigma.  Nossa hipótese é a de que essas Dimensões, ao permear os discursos e as ações docentes, contribuam para uma formação mais complexa, próxima da realidade dos sujeitos. Diante disso, esse artigo busca investigar de que forma as questões da complexidade estão presentes nas produções de membros de grupos de pesquisa espanhóis que as incorporam no contexto da educação científica escolar. Ao investigar tais grupos, pretende-se aprofundar o sentido dessas Dimensões e suas especificidades, através de aproximações não nacionais. Metodologicamente, a pesquisa compreende dois momentos: (1) identificação dos pontos de partida de aspectos da complexidade na Dimensão Educacional, na Dimensão Ensino-Aprendizagem e na Dimensão Epistemológica; e (2) identificação desses aspectos, tomando como material de referência as produções em periódicos de alguns grupos educacionais espanhóis especialistas no assunto. Para análise dos dados, considerar-se-á a Análise Textual Discursiva, tomando como parâmetro a perspectiva da complexidade e as estratégias usuais em estudos etnográficos. Dentre os resultados, constata-se uma significativa convergência de perspectivas, ainda que com matizes. Reitera-se que uma mudança nas propostas de educação científica, que busquem ir além de um pensamento simples e trabalhar na perspectiva mais complexa, é potencializada quando a complexidade leva em conta, de forma articulada, aspectos de todas suas Dimensões. Ou seja, uma educação para a complexidade requer que ela seja incorporada em um conjunto de ações/ atitudes/ reflexões; caso contrário, a escola está apenas acentuando alguns modos de pensar e atuar que podem levar apenas às mudanças pontuais e individualizadas.

Biografia do Autor

Giselle Watanabe, Universidade Federal do ABC

É pós doutora pela Universidad de Sevilla (2014) e pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo, com visita técnica à Universitat Autònoma de Barcelona e à Universidad de Sevilla (2019). É licenciada em Física (2003), mestra (2008), doutora (2012) em Ensino de Ciências, pela Universidade de São Paulo, professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, desde 2013. Atua na área de Ensino de Ciências/Física (ensino-aprendizagem e formação de professores) com foco nos temas: aspectos da complexidade, educação para o risco, criticidade, decrescimento e meio ambiente, e modelos metodológicos pessoais. Lidera o grupo de pesquisa GrECC que estuda tais temas no contexto escolar.

Maria Regina Dubeux Kawamura, Universidade de São Paulo

É bacharel em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1972), mestra (1979) e doutora (1986) em Física pela Universidade de São Paulo. É professora Instituto de Física da Universidade de São Paulo desde 1986, tendo atuado nas Áreas de Pesquisa de Física do Estado Sólido, com ênfase em Biofísica (1986-1995) e Pesquisa em Ensino de Física (1990 até a presente data).  Trabalha, dentre outros, com temas relacionados à complexidade e problemas socioambientais, em sua inserção no ensino de Física. É coordenadora do projeto PROFIS/GREF que aproxima alunos da licenciatura, professores da rede particular e pública aos projetos de pesquisa e de formação continuada.

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Publicado

2020-08-12

Edição

Seção

Pesquisa em Ensino de Física