A História da Ciência no PNLD 2018: o Princípio de Arquimedes como estudo de caso

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7941.2021.e76199

Palavras-chave:

Arquimedes, Pseudo-história, Livros didáticos

Resumo

Este artigo discorre sobre o conteúdo “Princípio de Arquimedes” nos livros didáticos de Física do PNLD 2018. Investiga-se, dentre outros aspectos históricos, a presença do episódio envolvendo Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.) e o problema da coroa do rei de Siracusa, recorrentemente propagado, sob um viés empirista-indutivista, como a “descoberta do empuxo”. A proposta desenvolvida se descortina a partir de uma peculiaridade. Trabalhos acadêmicos em periódicos nacionais da área de Ensino de Física, nas últimas décadas, chamaram a atenção para aspectos histórico-filosóficos relacionados ao Princípio de Arquimedes. Pode-se questionar se essas discussões vêm tendo algum impacto nos livros didáticos. A análise crítica minuciosa mostra que ainda é frequente a presença da pseudo-história empirista-indutivista, bem como a apresentação historicamente descontextualizada do Princípio de Arquimedes. São também notáveis, nos livros analisados, repercussões dos questionamentos dos especialistas da área de Ensino de Física contra a narrativa mítica do episódio citado. Por vezes, notam-se nesses livros referências explícitas aos trabalhos acadêmicos, mas a repercussão em iniciativas direcionadas ao professor e ao aluno é ainda embrionária. Por outro lado, dentre os doze livros didáticos analisados, há dois exemplos de transposição robusta da História da Ciência para o contexto do ensino médio, explicitamente apoiados em trabalhos acadêmicos. Esses resultados apontam uma direção promissora.

Biografia do Autor

Juliana Mesquita Hidalgo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

É bacharel em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1998), mestra em Historia da Ciência (2001/FAPESP) e doutora em Filosofia/ Filosofia da Ciência (2005/FAPESP) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Realizou estágios de pós-doutoramento na UNICAMP (2005-2007/FAPESP) e na PUC-SP (2007-2008/FAPESP). Foi coordenadora de área do PIBID-Física CAPES na Universidade Federal do Rio Grande do Norte entre 2010 e 2012. Atualmente é professora pesquisadora no Departamento de Física Teórica e Experimental da UFRN e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências Naturais e Matemática. Atua principalmente nas áreas de História da Ciência, História e Filosofia da Ciência no Ensino e Natureza da Ciência (www.hfcjhidalgo.com). É integrante do Grupo de História, Teoria e Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo (www.ghtc.usp.br).

Daniel de Medeiros Queiroz, Atheneu Norte-Riograndense

Licenciado em Física (2011-2015) e Mestre em Ensino de Ciências Naturais e Matemática (2016-2018) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Pesquisa o ensino de Física mediante a inserção didática de História e Filosofia da Ciência tanto na educação básica quanto na formação inicial de professores, particularmente pelo uso do gênero biográfico à luz da nova historiografia da ciência. Atuou como professor preceptor do Programa de Residência Pedagógica (CAPES/MEC, 2018-2020) no subprojeto de Física da UFRN. Leciona Física no Atheneu Norte-Riograndense, instituição pública de ensino médio em tempo integral, tendo sido coordenador do Projeto de Inovação Pedagógica (SEEC-RN, 2017). É vinculado ao Grupo de História, Teoria e Ensino de Ciências (GHTC) da Universidade de São Paulo.

Mara Cristina Júlio de Oliveira, Mestranda em Ensino de Ciências Naturais e Matemática pela UFRN

Licenciada em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Mestranda em Ensino de Ciências Naturais e Matemática pelo PPGECNM da UFRN.

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Publicado

2021-09-20

Edição

Seção

História, Filosofia e Sociologia da Ciência e Ensino de Ciências/Física