Catulo revisitado: reflexões sobre propostas de traduções do poema 16 em língua portuguesa

Diogo Martins Alves

Resumo


Gaio Valério Catulo (87-84 e 57-54 a.C.) é, para os modernos, o principal representante da corrente estética em que sua poesia se insere, o chamado “neoterismo”. Também é considerado um dos poetas latinos mais traduzidos da Antiguidade (Vasconcellos, 1991, p. 11). Paradoxalmente, a transmissão de seu libellus sofreu diversas interpolações ao longo do tempo, sobretudo em relação aos poemas que contêm determinado léxico sexual. No presente estudo, apresentamos um breve panorama sobre o modo como editores e tradutores portugueses lidaram com o texto latino de Catulo, mais especificamente, com relação ao carmen 16. Nesse poema, Catulo emprega, no primeiro e último versos, termos de cunho sexual, a saber: os verbos pedicabo e irrumabo, que denominam o ato de penetrar por via anal e oral, respectivamente. A presença desses vocábulos fez com que editores do texto latino em alguma medida censurassem sua divulgação. Desse modo, nosso objetivo se divide em duas etapas: i) observar como editores dos textos latinos têm lidado com esse texto, e ii) analisar as escolhas tradutórias no poema vertido para a língua portuguesa, de maneira a refletir sobre como a supressão ou atenuação de um vocabulário obsceno vem sendo reconsideradas, sobretudo em traduções brasileiras.


Palavras-chave


Letras Clássicas; Catulo; Obscenidade; Tradução; Censura

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DOI: https://doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38n2p120



Cadernos de Tradução, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. ISSN 2175-7968.