O Núcleo Pivotante da Voz

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7968.2019v39nespp372

Palavras-chave:

Poesia Brasileira, Voz, Variação, Tradução

Resumo

Partindo do modo de funcionamento da voz nos discursos políticos recentes no Brasil, o artigo busca mostrar como eles são corolários de características muito reconhecidas historicamente e que se ligam em torno da noção de homem cordial, tomada aqui como esse pivoteamento constante da voz entre o privado e o público, a amabilidade e a violência, em todos os casos permanecendo como o núcleo do funcionamento do poder. Essa forma de funcionamento está ligada a um certo modo de conceber a voz de Deus e sua hipóstase política, mecanismo fundante do processo colonial. No entanto, a poesia brasileira tem assumido esse pivoteamento para apontar outros modos de funcionamento da voz, não apenas na tradição europeia, como a questão da voz na Grécia, mas, para além dessa outra báscula Jerusalém-Atenas, para potencializar e traduzir poeticamente os efeitos do complexo oral canibal apontado por Viveiros de Castro a respeito do mundo ameríndio e o modo OrfE(X)U por Edmilson de Almeida Pereira sobre a literatura negra e/ou afro-brasileira. Esses outros modos de existência de voz, colocados em variação, produzem uma nova dinâmica do espaço poético como partilha e dissenso, assumindo o pivoteamento e a variação para possibilitar a emergência de uma outra ética da voz e a sobrevivência dos mundos que ela coloca em jogo.

Biografia do Autor

Roberto Zular, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo

Roberto Zular nasceu em São Paulo em 1971. Em 1993, gradua-se em direito e recebe o prêmio Projeto Nascente da Universidade de São Paulo, categoria poesia, com o livro Superfície, Transparência, Espelho. Em 2001, obtém o título de Doutor em Língua e Literatura Francesa pela mesma Universidade com a tese No limite do país fértil ? Os escritos de Paul Valéry entre 1894 e 1896. Desde 2002 é Prof. Dr. do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP). É autor dos livros Criação em processo ? Ensaios de Crítica Genética, Dois ao cubo ? alguma poesia francesa contemporânea e Escrever sobre escrever ? uma introdução crítica à crítica genética. Atualmente, como desdobramento do estudo da recepção de Paulo Valéry no Brasil, sua linha de pesquisa principal está ligada ao estudo da VOZ, especialmente a relação entre corpo e escrita e um outro modo de pensar as noções de historicidade e ritmo.

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Publicado

2019-12-19