Cinema Ameríndio: silêncio e esquiva em tradução

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-7968.2021.e72967

Palavras-chave:

Documentário, Cinema Indígena, Tradução, Cosmologia Guarani

Resumo

O presente artigo busca se aproximar da imaginação conceitual guarani por meio dos documentários “Tekoha — o som da terra” (2017) de Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron e “Os verdadeiros líderes espirituais” (2013) de Alberto Alvares. Partimos do princípio de que a linguagem sonora e visual põe em diálogo cosmologias distintas (a ameríndia e a ocidental). O primeiro filme, que aborda a grave crise humanitária vigente nas reservas e áreas de retomada enfrentada pelo povo kaiowá no Mato Grosso do Sul, oportuniza a discussão sobre como a linguagem cinematográfica funciona nesta obra para expressar o luto e a luta desse povo. O segundo filme, que versa sobre o modo de ser guarani (nhande reko) a partir dos conhecimentos do xeramõi Alcindo e xejarji Rosa, em aldeia de Santa Catarina, abre ocasião para refletir como o silêncio e a esquiva constituem uma invisibilidade estratégica guarani.

Biografia do Autor

Sabrina Alvernaz Silva Cabral, Universidade Federal de Santa Catarina

Doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2008) e mestrado em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2011), com período sanduíche na Universidade Nacional de Rosário, Argentina. Já recebeu prêmio de menção honrosa - Prêmio Iniciação à Ciência da UERJ - pela atuação nos seguintes temas: discurso científico, letramento, gêneros do discurso. Sua dissertação estabeleceu encontros entre a filosofia da linguagem e a antropologia, ao mostrar como o ensaio de Jorge Luis Borges, Las Kenningar, abre espaços para se repensar o jogo entre metáfora e alteridade na contraluz do perspectivismo ameríndio, descrito por Eduardo Viveiros de Castro.

Sérgio Luiz Rodrigues Medeiros, Universidade Federal de Santa Catarina

Sérgio Medeiros é Professor Titular junto ao Departamento de Língua e Literatura Vernáculas, na Universidade Federal de Santa Catarina, e pesquisador do CNPq. Ganhou o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2017 na categoria Poesia, com o livro "A idolatria poética ou a febre de imagens". Tradutor, ensaísta e poeta. Entre março de 2010 e julho de 2013 foi o diretor executivo da editora da UFSC. Possui mestrado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1990) e doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1995). Realizou estágio de pós-doutorado na Stanford University (2001). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura-mitologia-viagem, mito-literatura-arquétipos, heroi - mito - deuses, poesia e poesia indígena-poesia contemporânea-canto. Tradutor e poeta, publicou várias traduções e cinco livros de poesia (finalista do prêmio Jabuti 2010 e semifinalista do prêmio Portugal Telecom 2010). A editora norte-americana Uno Press publicou, em New Orleans- EUA, em 2010, uma tradução completa do livro do autor, "O Sexo Vegetal", sob o título "Vegetal Sex". No Brasil, em 2011, lançou "Figurantes", em 2012, "Totens" , em 2013, "O choro da aranha etc." e "O desencontro dos canibais", e ,em 2015, "O fim de tarde de uma alma com fome" e "A formiga-leão e outros animais na Guerra do Paraguai". Como tradutor, verteu na íntegra para o português, com revisão técnica de Gordon Brotherston (Stanford University), a cosmogonia maia-quiché "Popol Vuh" (Iluminuras, São Paulo, 2007), finalista do Prêmio Jabuti em 2008. Desde 1997 vem reeditando a obra do Visconde de Taunay. Ensaios, poemas e prosas de Sérgio Medeiros estão disponíveis no jornal on-line "Qorpus", editado por Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros. Sua poesia já foi traduzida para o inglês e o espanhol. É membro do Editorial Board da publicação "Mayan Studies Journal/Revista de Estudis Mayas", The Ohio State University.

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Filmografia:

Karai ha'egui Kunhã Karai ‘ete. Os verdadeiros líderes espirituais. (MG, 2013, 67 min)- Projeto financiado pela CAPES - OEEI_Observatório da Educação Escolar Indígena – FAE/ UFMG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mpNAxnL45UM.

TEKOHA - som da terra (DF/MS, 2017, 20 min.), Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron. Disponível em link privativo: https://vimeo.com/217334549.

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Publicado

2021-05-25