Duas leituras em torno da raiva
DOI:
https://doi.org/10.5007/1677-2954.2026.e110875Palabras clave:
injustiça, motor emancipatório, raiva, reação contraproducenteResumen
Este ensaio defende a leitura de que a raiva é um afeto cujo atributo transformativo está no seu potencial de ser um motor emancipatório (de revolta) frente às formas de injustiça. Para apresentar esta interpretação, divido o argumento em três partes. Na primeira parte, abordo a relação entre o conteúdo proposicional da raiva e a experiência de injustiça. Desta relação, retiro duas conclusões. A primeira conclusão é que a hermenêutica da raiva, seguida de sua descarga no mundo, adquire uma semântica conceitual uma vez que seu corpus teórico é de caráter intersubjetivo. Já a segunda conclusão destaca que à sociabilidade deste afeto se comporta como elemento heurístico-motivacional que reage às experiências negativas causadas pela injustiça. Após isso, na segunda parte, faço uma reconstrução de sua perspectiva tradicional, isto é, de sua leitura conservadora. Irei apresentar, assim, uma leitura filosófica da raiva enquanto reação social contraproducente que auto prejudica a legitimidade político-moral de quem age em seu nome. Em terceiro lugar, afirmo, por sua vez, que há uma perspectiva crítica, ou seja, que interpreta este afeto enquanto um motor sensível social emancipatório. Raiva, assim, é concebida enquanto ação coletiva orientada por ideais e práticas abolicionistas: quando usada com precisão e em nome da mudança social, ela se torna uma poderosa fonte de transformação da sociedade.
Citas
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; Poética. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Coleção Os Pensadores, v. 2).
ARISTÓTELES. Retórica. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005.
BAILEY, Alison. On anger, silence and epistemic injustice. Royal Institute of Philosophy Supplements, v. 84: Harms and wrongs in epistemic practice, p. 93-111, 2018.
BELLO, Letícia. Revisão crítica da definição clássica da raiva: uma defesa da abordagem pluralista. Kalagatos: Fortaleza, v. 21, n. 2, 2024. (edição especial).
CHERRY, Myisha. A case for rage: why anger is essential to antiracist strugle. Nova Iorque: Oxford University Press, 2021.
DA HORA PEREIRA, Leonardo J. Ontologia social e teoria crítica: em torno do diagnóstico de experiências sociais negativas. TRANS/FORM/AÇÃO (UNESP. MARÍLIA. IMPRESSO), v. 47, p. 1-24, 2024.
DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: Difel, 2018.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução: Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
FlANAGAN, Owen. Introduction: the moral psychology of anger. In: CHERRY, Myisha; FLANAGAN, Owen (org). The moral psychology of anger. London: Rowman & Littlefield International Ltd, 2018.
FRYE, Marilyn. The politics of reality: essays in feminist theory. California: Crossing Press, 1983.
HABERMAS, Jürgen. A nova obscuridade: pequenos escritos políticos V. [Luiz Repa: Die Neue Unübersi-chtlichkeit. Kleine politische Schriften V]. São Paulo: UNESP, 2015.
HONNETH, Axel. O direito da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
HOOKS, bell. Killing rage: ending racism. New York: Henry Holt and Company, 1995.
JAGGAR, Alison. Love and knowledge: emotion in feminist epistemology. Inquiry, v. 32, n. 2, p. 151-176, 1989.
JASPER, James M. Constructing indignation: anger dynamics in protest movements. Emotion Review, v. 6, n. 3, p. 208-213, 2014. https://doi.org/10.1177/1754073914522863.
LeBOEUF, Céline. Anger as a political emotion: a phenomenological perspective. In: CHERRY, Myisha; FLANAGAN, Owen (org). The moral psychology of anger. Rowman & Littlefield International, 2018.
LORDE, Audre. Irmã Outsider: ensaios e conferências. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
LUGONES, María. Hard-to-handle anger. In: LUGONES, María. Pilgrimages/Peregrinajes: theorizing coalition against multiple oppressions. Oxford: Rowman & Littlefield Publishers, 2003.
NARAYAN, Uma. Working together across differences: some considerations on emotions and political practice. Hypatia, v. 3, n. 2, p. 31-47, 1988.
NUNES, Rodrigo. Nem vertical, nem horizontal: uma teoria da organização política. São Paulo: Ubu, 2023.
NUSSBAUM, Martha. Anger and forgiveness: resentment, generosity, justice. New York: Oxford University Press, 2016.
NUSSBAUM, Martha. Transitional anger. Journal of the American Philosophical Association, p. 41-56, 2015.
SÊNECA. Sobre a ira/Sobre a tranquilidade da alma. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
SHKLAR, Judith. The faces of injustice. New Haven: Yale University Press, 1990.
SILVA, Laura. The efficacy of anger: recognition and retribution. In: FALCATO, A.; GRAÇA DA SILVA, S (org.). The politics of emotional shockwaves, p. 1–28, 2021a.
SILVA, Laura. Is anger a hostile emotion? Review of Philosophy and Psychology, v. 15, n. 2, 2021b.
SILVA, Laura. Anger and its desires. European Journal of Philosophy, p. 1115–1135, 2021c.
SRINIVASAN, Amia. The aptness of anger. Journal of Political Philosophy v. 26, n. 2, p. 123-144, 2018.
WILLIGES, Flavio. There is a presence in anger: an analysis of traditional critiques of racial anger protest. Sofia: Vitória (ES), v. 12, n. 2, p. 01-28. 2023.
Descargas
Publicado
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2026 Gustavo Teixeira

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución 4.0.
Os autores retêm os direitos autorais e direitos de publicação sobre suas obras, sem restrições.
Ao submeterem seus trabalhos, os autores concedem à revista ethic@ o direito exclusivo de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Essa licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, desde que seja dado o devido crédito de autoria e à publicação original neste periódico.
Os autores também têm permissão para firmar contratos adicionais, separadamente, para distribuição não exclusiva da versão publicada do trabalho neste periódico (por exemplo: depositar em repositório institucional, disponibilizar em site pessoal, publicar traduções ou incluí-lo como capítulo de livro), desde que com reconhecimento da autoria e da publicação inicial na revista ethic@.
