Educação linguística, decolonialidade e o direito à ideologia heteroglóssica e opaca

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-8412.2026.e108702

Palavras-chave:

decolonialidade, colonialidade da linguagem, ideologia heteroglóssica, comunicação opaca

Resumo

Este artigo se propõe a indagar o futuro dos estudos linguísticos e, em particular, da educação linguística em face dos desafios contemporâneos. Para tanto, veste as lentes do pensamento decolonial para reimaginar conceitos do campo da linguagem. Parte-se da ideia de que para descolonizar as práticas linguageiras e a educação linguística torna-se fundamental fissurar construtos que são frutos da herança de teorias da aquisição de línguas sob uma orientação majoritariamente cognitiva e estruturalista. Para tanto, o artigo focalizará dois conceitos muito relevantes no campo, a saber, a ideologia monoglóssica assentada na ficção das chamadas named languages bem como o entendimento ocidental de comunicação assentado no desejo de totalidade, compreensão e inteligibilidade. Para este movimento fractal, pretende-se explorar os conceitos de colonialidade da linguagem, racismo linguístico e raciolinguística ao percebê-los como fundamentais para o acolhimento a uma orientação linguística heteroglóssica e a abertura à condição opaca da comunicação. O artigo conclui atestando a frutífera renovação crítica dos estudos linguísticos em sua interface com o debate decolonial e o potencial que se revela para pensar uma educação linguística outra.

Biografia do Autor

Ana Paula Martinez Duboc, USP

 Docente do Departamento de Metodologia e Educação Comparada (EDM) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) onde atua nos cursos de Pedagogia e Licenciatura em Letras bem como no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) Coordena o Grupo de Pesquisa Educação, Linguagem e Colonialidades (ELCo). Desde 2021, co-coordena o Projeto Nacional de Letramentos. Sua pesquisa abrange os seguintes temas: educação linguística crítica e decolonial, , letramento crítico e formação de professores de línguas. 

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Publicado

2026-03-05

Edição

Seção

Dossiê | Educação Linguística Crítica: saberes, práticas e resistências