Dimensões do governo colonial em Moçâmedes e suas conexões com o Brasil: trabalho, negócios e conflitos, 1840-1860

Autores

  • Maria Luiza Ferreira Oliveira Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-9222.2020.e71369

Palavras-chave:

Colonização militar, Trabalho forçado, Moçâmedes, Resistências

Resumo

Este artigo mapeia conexões de homens, saberes e negócios entre Portugal, Angola e o Brasil nos anos de 1840 a 1860. Investigo a circulação dos saberes de produção de commodities, assim como pretendo esmiuçar as práticas da administração colonial, especialmente sobre as formas de arregimentação do trabalho (especializado e braçal) nesse momento dos cruzadores e dos tratados antitráfico. Busco ressaltar as tensões, embates e uma persistente resistência que operava de diversas formas, seja na recusa ao trabalho, na fuga, na luta institucional ou na guerra. O artigo tem quatro partes: na primeira, examino a circulação de ideias sobre a colonização militar nesse período; em seguida, procuro observar, no estabelecimento de Moçâmedes, as suas conexões com o Brasil; em uma terceira parte, estudo a fundamental presença dos trabalhadores libertos e escravos; e, por fim, trato das contínuas guerras travadas na região, sobretudo nos últimos anos da década de 1850. Ao longo do artigo, estão algumas trajetórias reveladoras de percursos atlânticos nos negócios e na administração colonial: indivíduos formados nas lutas políticas dos anos 1820-1830 que assumiam novos (velhos) papéis nos novos (velhos) tempos da colonização.

Biografia do Autor

Maria Luiza Ferreira Oliveira, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Docente da graduação e da pós graduação do Departamento de História da EFLCH - UNIFESP desde 2008. Pós-doutorado no ICS em Lisboa, 2016-2017. Doutorado em História Social, USP, 2003. Bacharel em História pela USP.

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Publicado

2020-08-05

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Artigos