Há diferença entre a compreensão leitora e a oral ao final do ensino fundamental?
DOI:
https://doi.org/10.5007/2175-795X.2026.e102123Palavras-chave:
Compreensão leitora, Compreensão auditiva, Avaliação da compreensãoResumo
A compreensão oral tem sido negligenciada em comparação à escrita, tanto na pesquisa quanto no ensino, especialmente no Brasil. Visando contribuir para suprir essa lacuna, o presente estudo comparou a compreensão de textos em modalidade oral (MO) e escrita (ME) em 336 alunos da 8ª série (idade média = 14 anos; 192 meninas). Os textos, equilibrados quanto à complexidade e à extensão, foram seguidos de questões de múltipla escolha de caráter literal ou inferencial. O desempenho foi analisado em três grupos de leitores: com baixo desempenho em leitura (BDL; 64 alunos, 19%), médio desempenho (MDL; 197 alunos, 58,6%) e alto desempenho (ADL; 75 alunos, 22,3%). Os resultados indicaram maiores pontuações nas questões da ME em comparação às da MO. Questões inferenciais apresentaram menores índices de acerto do que as literais, com destaque para o pior desempenho no grupo BDL. Resultados semelhantes foram observados na análise intrassubjetiva. Conclui-se, portanto, que há perfis distintos de compreensão escrita e oral entre estudantes ao final do ensino fundamental, e que conteúdos implícitos constituem maior desafio à compreensão quando apresentados na MO do que na ME. O conhecimento sobre os processos comuns e específicos de compreensão em ambas as modalidades pode lançar luz sobre a origem das dificuldades de compreensão leitora e auditiva, contribuindo para orientar intervenções pedagógicas e clínicas.
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