Literatura em perigo, o perigo da literatura

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-795X.2025.e105293

Palabras clave:

Ensino de letras, Censura, Resistência

Resumen

Pensadores de prestígio, vinculados aos Estudos Literários, como Tzvetan Todorov e Antoine Compagnon, deram-se conta, no começo deste século, que os estudantes franceses de ensino médio não apresentavam particular interesse pela leitura de livros ou pela leitura em geral, dentro e fora da escola. Tzvetan Todorov atribui a falta à aplicação, a obras literárias, de conceitos teóricos e métodos sofisticados, difundidos pelo ensino superior, por decorrência colocando a interpretação deles em segundo plano. No Brasil, a situação toma configuração própria, já que, ao lado da predominância da teoria e da metodologia sobre a interpretação, assiste-se à diminuição do interesse pela formação profissional oferecida pelos cursos e faculdades de Letras. Ao encolhimento do número de programas universitários de Letras, em nível de graduação e de pós-graduação, soma-se a diminuta oferta do número de aulas dedicadas a obras literárias no ensino médio, reiterando o parecer de Todorov de que a literatura está ameaçada de desaparecimento. A esse risco adiciona-se outro: o perigo representado pela própria literatura, ao traduzir temas e polemizar questões indesejadas pelos grupos dominantes, o que a torna objeto de assédio por parte de instituições repressoras, como a censura. O teor revolucionário que pertence à natureza da literatura pode torná-la aparentemente ameaçadora, restringindo seu acesso. Mas o interesse pela Literatura não esmorece, pois novos caminhos são percorridos pelos autores, afiançando a capacidade de resistência que a faz encontrar novos públicos, dentro e fora da escola.

Biografía del autor/a

Regina Zilberman, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Doutora em Romanística pela Universidade de Heidelberg, Alemanha.

 

Citas

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Publicado

2025-10-31

Cómo citar

Zilberman, R. (2025). Literatura em perigo, o perigo da literatura. Perspectiva, 43(3), 1–14. https://doi.org/10.5007/2175-795X.2025.e105293

Número

Sección

Dossiê A escola remota aconteceu: e agora, cadê o leitor?