Mulheres de favelas e o (outro) feminismo popular

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2022v30n175556

Palavras-chave:

mulher, favela, ativismo, feminismo popular

Resumo

Neste artigo, temos como objetivo apresentar e ampliar o conceito de feminismo popular na América Latina a partir do caso das mulheres de favelas que são reconhecidas pelo seu ativismo social e político. Para tal, partiremos das epistemologias feministas e decoloniais que nos permitem perceber as resistências geralmente invisibilizadas pela colonialidade do gênero e muitas vezes ignoradas pelo feminismo hegemônico. Metodologicamente, este estudo se alicerça em uma pesquisa qualitativa na qual foram realizadas entrevistas com 110 mulheres em 105 favelas do Rio de Janeiro. Apoiamo-nos, principalmente, nas respostas à questão sobre se considerarem feministas ou não e o motivo. Assim, propomos uma definição ampliada do feminismo popular que se caracteriza pela subjetividade específica dessas mulheres, sua articulação em rede, um compromisso radical pela favela e uma temporalidade de ação diferenciada na cidade.

Biografia do Autor

Nilza Rogéria de Andrade Nunes, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Doutora em Serviço Social (PUC-Rio) com estágio doutoral na University of Dundee, Scotland, UK; mestre em Psicossociologia de Comunidade e Ecologia Social (UFRJ); assistente social (UFRJ). Atualmente é professora de graduação, pós graduação e extensão no Departamento de Serviço Social da PUC-Rio.

Anne-Marie Veillette, Doutoranda em Estudos Urbanos no Institut National de La Recherche Scientifique (Montréal, Canadá)

Doutoranda em Estudos Urbanos no Institut National de La Recherche Scientifique (Montréal, Canadá) em colaboração com o Departamento de Serviço Social da PUC-Rio (Brasil); Mestrado em Ciência Política e Estudos Feministas na Universidade do Québec em Montréal (UQAM); Graduação em Relações Internacionais e Direito Internacional na UQAM. Bolsista do Conselho de Investigação em Ciências Sociais e Humanidades do Canadá.

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Publicado

2022-05-23

Edição

Seção

Artigos