Territórios descartáveis: resíduos, águas e desastres socioambientais no Sul do Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e108206

Palavras-chave:

Desastres socioambientais, Resíduos, História Ambiental, Metabolsimo urbano, Capitalismo do desastre

Resumo

Este artigo analisa como os desastres socioambientais, ocorridos nas bacias hidrográficas do Itajaí-Açu (SC) e do Guaíba (RS), revelam dinâmicas históricas de desigualdade, racismo ambiental e vulnerabilidade estrutural. A partir de uma abordagem interdisciplinar, o estudo articula conceitos como metabolismo urbano, colonialidade do poder e capitalismo do desastre para compreender de que maneira a gestão desigual das águas e dos resíduos reproduz hierarquias sociais e raciais no espaço urbano e nos territórios indígenas. Utilizando dados empíricos sobre as enchentes de 2023 e 2024 e análises de casos emblemáticos como a Barragem Norte e os bairros periféricos de Porto Alegre, a pesquisa demonstra que os desastres não se configuram como eventos excepcionais, mas como parte de um processo contínuo de precarização que expõe comunidades pobres, negras e indígenas aos maiores riscos e aos menores recursos de proteção e recuperação. Ao problematizar a produção e o acúmulo de resíduos nos territórios afetados, o artigo propõe compreender os rejeitos como marcas materiais da desigualdade, inscrevendo-se em um metabolismo social que concentra os danos ambientais nos corpos e espaços dos mais vulneráveis.

Biografia do Autor

Esther Mayara Zamboni Rossi, Universidade Federal de Santa Catarina

Doutora em História
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Santa Catarina

Referências

ABRELPE - Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Panorama dos resíduos sólidos no Brasil. Disponível em: http://www.abrelpe.org.br/Panorama/panorama2015.pdf. Acesso em: junho de 2017.

ARMIERO, M.; DE ANGELIS, M. 2017. “Anthropocene: victims, narrators, and revolutionaries”. South Atlantic Quarterly, 116(2): 345-362.

Atlas do Desenvolvimento Humano dos Municípios. Disponível em: https://www.undp.org/pt/brazil/atlas- dosmunic%C3%ADpios#:~:text=O%20Atlas%20Brasil%20%C3%A9%20um,dos%20munic%C3

%ADpios%20e%20es tados%20brasileiros.

BARBIERI, I.; ALBUQUERQUE, L.; APARICIO, A. B. Justiça ecológica e subalternidades:

resistências no contexto do capitalismo do desastre. Cadernos do Programa de PósGraduação em Direito–PPGDir/UFRGS, v. 19, n. 1, p. 50-72, 2024.

BIERNATH, André. O que causou a enchente de 1941 em Porto Alegre — e por que ela não é argumento para negar mudanças climáticas. BBCNews Online. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv27272zd79o

Comitê de Gerenciamento Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí. Disponível em: https://www.aguas.sc.gov.br/a-bacia-rio-itajai/municipios-da-bacia-rio-itajai

CONRAD, Sebastian. What is Global History. Princeton: Princeton University Press, 2016.

CROWLEY, J. A measurement of the effectiveness and efficiency of pre-disaster debris management plans. Waste Management, v. 62, p. 262-273, 2017. https://doi.org/10.1016/j. wasman.2017.02.004

DE PAULA, S. M.; NODARI, E. S.; ESPÍNDOLA, M. A. O crescimento urbano e as enchentes em Blumenau (SC). Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, p. 201, 2014.

DEPARTAMENTO Municipal de Limpeza Urbana de Porto Alegre.

ESPÍNDOLA, M. A.; NODARI, E. S. Enchentes inesperadas? Vulnerabilidades e políticas públicas em Rio do Sul-SC, Brasil. Esboços: histórias em contextos globais, v. 20, n. 30, p. 9-34, 2013.

FERNÁNDEZ-JÁUREGUI, C. A. El agua como fuente de conflictos: repaso de los focos de conflictos en el mundo. Revista CIDOB d'Afers Internacionals, p. 179-194, 1999.

FREITAS, C. M. de; XIMENES, E. F. Enchentes e saúde pública: uma questão na literatura científica recente das causas, consequências e respostas para prevenção e mitigação. Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, p. 1601-1616, 2012.

GONZÁLEZ DE MOLINA, M.; TOLEDO, V. M. El metabolismo social: historia, métodos y principales aportaciones. Sevilla: Universidad Pablo de Olavide, 2011.

INFANTE-AMATE, J.; DE MOLINA, M. G.; TOLEDO, V. M. El metabolismo social. Historia, métodos y principales aportaciones. Revibec: revista iberoamericana de economía ecológica, v. 27, p. 130-152, 2017.

KLEIN, N. A ascensão do capitalismo do desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

LOPES, A. R. S. A Lagoa do Sombrio corre que desaparece: uma história ambiental da degradação eo atual debate sobre a preservação da Lagoa de Sombrio (1960- 2010). 2011. Tese de Doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis

MARQUES, L. C. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Unicamp, 2015.

MARQUESE, R.; PIMENTA, J. P. Tradições de história global na América Latina e no Caribe. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, v. 8, n. 17, 2015.

MARTÍNEZ ALIER, J. O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valorização. São Paulo: Contexto, 2007.

MOORE, J. W. The Capitalocene, Part I: on the nature and origins of our ecological crisis. The Journal of peasant studies, v. 44, n. 3, p. 594-630, 2017.

NODARI, E. S. A Bacia do Itajaí-Açu pede Ajuda: Reações ao apelo. Iluminuras, v. 21, n. 55, 2020.

PEIXOTO, R. Como uma enorme mancha de lixo virou um ecossistema no oceano? G1 – Meio Ambiente / COP30, 29 set. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/meioambiente/cop-30/noticia/2025/09/29/como-uma-enorme-mancha-de-lixo-virou-umecossistema-no-oceano.ghtml. Acesso em: 20 out. 2025.

QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais – Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.

RIAL, C. (org.) O poder do lixo: abordagens antropológicas dos resíduos sólidos. Rio de Janeiro: ABA Publicações, 2016.

RIO Itajaí-Açu acumula montanha de lixo: Em Itajaí, a cada dois dias, são recolhidas 60 toneladas de entulhos, 3 maio 2011 - 18:24. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/rio-itajai-acu- acumula-montanha-de-lixo

ROSSI, E. M. Z. Políticas públicas para resíduos sólidos urbanos domésticos: Brasil, Porto Alegre (1970-2015). Doutorado em História (Programa de Pós-Graduação em História), Universidade Federal de Santa Catarina, 2021.

SARTI, A. C.; LOMBARDO, M. A. Riscos ambientais nas cidades e floresta urbana. Territorium: Revista da Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança, Coimbra, n. 17, p. 211–222, 2010.

Secretaria Do Meio Ambiente E Infraestrutura. Disponível em: https://sema.rs.gov.br/g080-bh- guaiba

SEDREZ, L. Desastres socioambientais, políticas públicas e memória–contribuições para a história ambiental. In: NODARI, E. S.; CORREA, S. M. de S. (orgs.) Migrações e natureza. São Leopoldo: Oikos, 2013. p. 185-202.

SESSÃO Plenária da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Abril de 1989. Disponível em: https://camarapoa.rs.gov.br/site/anais_sessoes_plenarias_antigas/1989

Downloads

Publicado

30.12.2025

Edição

Seção

Dossiê: Imprevisível como Norma: desastres, território e a política da vulnerabilidade. Organização: Dra. Eunice Sueli Nodari; Dr. Hernani Ciro Santana; Jó Klanovicz.