A vigilância da terra e a desterritorialização em comunidades tradicionais na Bahia
DOI:
https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e108951Palavras-chave:
vigilância, mineração, desterritorializaçãoResumo
Este artigo discute, a partir do avanço da mineração em comunidades tradicionais da Bahia, como os regimes de expansão capitalista, em fase de crise, promovem guerras para legitimar a vigilância e controle sobre os territórios. O trabalho situa-se no campo discursivo e utiliza o aporte teórico de Foucault (1988, 2005, 2008a, 2008b, 2008c, 2010, 2014, 2018, 2021) articulando-o com autores como Lenin (2012), Mészáros (1930), Agamben (2017), Lazzarato (2015, 2021) e Barad (2017), entre outros. Os resultados mostram a dimensão da “máquina de guerra do capital” (Alliez; Lazzarato, 2021; Deleuze; Guattari, 2012) a partir dos avanços da mineração na Bahia. Tais processos promovem a vigilância da terra como núcleo dos mecanismos de expansão capitalista, gerando uma economia guiada por uma lógica de dominação e dependência que produz um habitar “liso”. A monopolização dos recursos naturais, sob a forma de produto econômico e capital privado, opera por meio de dispositivos de governamentalidade. A vigilância e o controle da terra criam normas de conduta que restringem o uso do espaço, da água e do solo, configurando um regime biopolítico que legitima o exercício da violência e a desterritorialização.
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