Ensino de Ciências, Interculturalidade e Decolonialidade: possibilidades e desafios a partir da pesca com o timbó

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/2175-795X.2021.e66708

Resumo

O Timbó compõe a mitologia Kurâ-Bakairi. A pesca com timbó é realizada por alguns grupos indígenas com a utilização de um cipó, denominado popularmente como timbó, que, depois de “esmagado” na água, intoxica os peixes. O presente texto visa analisar como a pesca com timbó se constitui como uma temática de ensino de Ciências da Natureza em uma escola indígena Kurâ-Bakairi, a partir dos enunciados dos sujeitos sobre as práticas pedagógicas nessa realidade escolar e à luz da interculturalidade crítica e da decolonialidade no ensino. Este estudo possui como abordagem metodológica a pesquisa qualitativa do tipo descritiva e com perspectiva etnográfica, sendo realizada em uma escola do povo Kurâ-Bakairi da aldeia Aturua, no município de Paranatinga - Mato Grosso. Os dados foram constituídos em duas etapas. A primeira etapa consistiu na observação, realizada em várias idas nessa aldeia, desde o ano de 2011. Na segunda, fundamental na constituição dos resultados apresentados neste artigo, os dados foram coletados por meio do diálogo entre pesquisadoras, professor de Ciências e representante da comunidade. Os dados indicam que, embora utilizem o mesmo Livro Didático das escolas não indígenas brasileiras, esses professores ressignificam esse desafio a partir das possibilidades trazidas pela seleção de conteúdos e com o diálogo com os conhecimentos ancestrais Kurâ-Bakairi. Portanto, essas práticas anunciam o encontro entre os diferentes conhecimentos, conforme defendida na perspectiva intercultural crítica. Assim, neste artigo, à luz dos efeitos da colonialidade e da defesa da decolonialidade, reflete-se sobre a utilização do livro didático, sobre Ciências e Tecnologia, e problematiza-se como a pesca com o timbó se constitui como espaço intersticial para o diálogo intercultural no ensino de Ciências e contribua com o rompimento/superação da colonialidade do saber/poder no espaço escolar dessa comunidade.

Biografia do Autor

Yasmin Lima de Jesus, Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIMA/UFS), com bolsa CAPES. Grupos de Pesquisa: GEPIADDE e NEABI. E-mail: yasminlima.9@gmail.com

Edinéia Tavares Lopes, Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Doutora e Pós-Doutora em Educação. Profa. Associada da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e membro do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática e do Programa de Pós-Graduação em Educação, ambos da UFS. Grupos de Pesquisa: GEPIADDE e NEABI. E-mail: edineia.ufs@gmail.com e edineia.ufs@pq.cnpq.br.

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Publicado

2020-08-25

Como Citar

Lima de Jesus, Y., & Tavares Lopes, E. (2020). Ensino de Ciências, Interculturalidade e Decolonialidade: possibilidades e desafios a partir da pesca com o timbó. erspectiva, 39(2). https://doi.org/10.5007/2175-795X.2021.e66708

Edição

Seção

Dossiê Linguagem, literatura e decolonialidade: caminhos para pensar a educação em ciências