Desafios à governança policêntrica do clima: uma análise a partir da Conferência entre as Partes - COP
DOI:
https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e107746Palavras-chave:
Mudanças climáticas, Policentrismo, Conferência entre as Partes, Acordos ClimáticosResumo
Este artigo analisa criticamente os desafios da governança policêntrica do clima a partir das Conferências entre as Partes (COPs), abordando suas potencialidades e limitações como arenas de negociação política e produção de consensos multilaterais. O objetivo principal é compreender como a abordagem policêntrica tem moldado a governança climática global e em que medida essa perspectiva tem sido eficaz diante da complexidade e das desigualdades estruturais envolvidas nas mudanças climáticas. A justificativa reside na necessidade de investigar os processos discursivos, institucionais e políticos que organizam a resposta global à crise climática, especialmente diante da crescente assimetria entre os atores envolvidos e da crise de legitimidade das instituições multilaterais. A metodologia adotada é qualitativa, com base em revisão bibliográfica, articulando diferentes autores que discutem o assunto, apontando a interdisciplinaridade deste tema. O texto analisa o papel das COPs como espaços performativos de disputa entre Estados, empresas, movimentos sociais e organizações civis, destacando tanto seus avanços quanto os entraves enfrentados, como a fragmentação institucional, o colonialismo climático e a financeirização das soluções. A principal conclusão é que, embora o policentrismo represente uma alternativa relevante ao modelo estatocêntrico, ele não elimina as desigualdades estruturais nem garante eficácia e justiça na ação climática global. Ao contrário, sua instrumentalização pode legitimar formas tecnocráticas e mercantis de governança que perpetuam a lógica neoliberal e normalizam o colapso climático.
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