Cartas para não morrer: arte postal, aids e perlaboração
DOI:
https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e109255%20Palavras-chave:
arte postal, aids, política do sensivel, perlaboraçãoResumo
Este artigo propõe interpretar a arte postal sobre aids como uma prática estética de elaboração coletiva que transformou o circuito do correio em um campo de experimentação ética e política. A partir das noções de heterotopia, tecnologia de si, contra-dispositivo, profanação e política do sensível, o texto investiga como o envio e a circulação das imagens reconfiguram a relação entre corpo, desejo, risco e memória. O objetivo é compreender a II Exposição Internacional de Arte Postal sobre AIDS (Salvador, 1995) não como um registro documental da epidemia, mas como uma operação de pensamento e de vida que subverte os modos institucionais de dizer o sofrimento e de administrar o prazer. Nas cartas, envelopes e colagens que viajaram entre anônimos, a arte não representa o trauma: ela o elabora, fabricando tempo, linguagem e lugar para o cuidado de si e do outro. O correio converte-se em heterotopia de partilha, onde as imagens funcionam como gestos de resistência e de reinvenção da presença. Ao restituir ao comum signos capturados pelo estigma, a arte postal afirma o vínculo entre estética e ética e ensina uma gramática mínima de sobrevivência: elaborar sem apagar, cuidar sem moralizar, lembrar sem fetichizar a dor. Nessa perspectiva, a arte postal é entendida como forma de pensamento que faz respirar o comum e devolve à linguagem sua função de abrigo.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.
AGAMBEN, Giorgio. O que é um dispositivo? In: AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. p. 25-54.
BUTTURI JUNIOR, A. O HIV, o ciborgue, o tecnobiodiscursivo. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 58, n. 3, 2019. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8656338. Acesso em: 10 out. 2024.
BUTTURI JUNIOR, A. A PrEP, o HIV e as táticas de desobediência. Fórum Linguístico, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/forum/article/view/12345. Acesso em: 1 jl. 2025.
CARUTH, Cathy. Unclaimed Experience: Trauma, Narrative, and History. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1996.
DANIEL, Herbert; PARKER, Richard. AIDS, a terceira epidemia: ensaios e tentativas. Rio de Janeiro: ABIA, 2018.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tomam posição. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontando tempos sóbrios: O olho da história III. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FOUCAULT, Michel. A Coragem da Verdade: O governo de si e dos outros II. Curso no Collège de France (1983-1984). Tradução de Eduardo Brandão. 1ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.
GÓIS, João Bosco Hora. Aids, liberdade e sexualidade. In: QUADRAT, Samantha Viz (org.). Não foi tempo perdido: os anos 80 em debate. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014. p. 210-246.
LANDAU, Caroline. "A aids mudou de cara": memória coletiva e novas oportunidades para o ativismo da aids no Brasil. PLURAL, São Paulo, v. 17, n. 2, p. 11-44, 2011. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/plural/article/view/123456. Acesso em: 10 out. 2024.
LA CAPRA, Dominick. Writing History, Writing Trauma. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2001.
LAURINDO-TEODORESCU, Lindinalva; TEIXEIRA, Paulo Roberto. Histórias da aids no Brasil, v. 2: a sociedade civil se organiza pela luta contra a aids. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/2024/hiv-aids-2024. Acesso em: 1 set. 2025.
NUNES, Andrea Paiva. Todo lugar é possível: a rede de arte postal, anos 70 e 80. 2004. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12345. Acesso em: 10 out. 2024.
OLIVEIRA, Lucas A. 1º de dezembro: em 1991 o GGB realizou 1º Concurso Internacional de Arte Postal sobre Aids. CEDOC LGBTI+, 2021. Disponível em: https://cedoclgbti.com.br/2021/12/01/concurso-arte-postal-aids/. Acesso em: 10 out. 2024.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.
RODRIGUES, Carla. O luto entre clínica e política: Judith Butler para além do gênero. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
ROSA, Johnny R. Trauma, história e luto: a perlaboração da violência. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 10, n. 25, p. 289-327, 2018. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/123456789. Acesso em: 5 jul. 2025.
SOUZA, Leonília G. B. de. Arte postal: perspectivas de uma arte em rede. 2010. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/12345. Acesso em: 10 out. 2024.
VIEIRA, Priscila Piazetini. A coragem da verdade e a ética do intelectual em Michel Foucault. São Paulo: Intermeios, 2015.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Fabio Feltrin Souza, Alisson Gonçalves

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
Autores e autoras mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online após a sua publicação (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) já que isso pode aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).