Desenhos para sonhar a tradução: tradução por imagens e cosmologia yanomami
DOI:
https://doi.org/10.5007/2175-7968.2026.e108714Palavras-chave:
tradução, cosmovisão yanomami, sonhoResumo
O livro A queda do céu: palavras de um xamã yanomami é uma colaboração tradutória entre o antropólogo Bruce Albert e o xamã do povo yanomami Davi Kopenawa. Embora a obra tenha buscado transmitir as palavras do xamã de forma a enaltecer o protagonismo indígena e seja uma tentativa de Davi Kopenawa de transmitir as palavras yanomami em defesa da floresta, o xamã, em diversas passagens do livro, demonstra o desconforto que sente com a palavra escrita e a hipervalorização dessa forma de comunicação pela cultura ocidental. Afirmando, ainda, que os não indígenas não sabem “sonhar” a floresta e que, por isso, não a defendem, Kopenawa faz críticas à percepção ensimesmada de mundo dos “brancos” e traz a dimensão do sonho da cosmologia yanomami como uma prática importante para se conhecer a floresta por diferentes perspectivas — em “sonho”, o xamã se encontra com os xapiri pë por imagem (utupë) para conhecer suas palavras, tendo acesso ao conhecimento transmitido por esses entes. Admitindo o sonho yanomami como uma prática tradutória, este artigo propõe evidenciar a cosmologia yanomami como método de tradução diante de projetos editoriais ocidentais que tenham o propósito de estabelecer uma aproximação desse povo indígena, afirmando a potência da atividade tradutória para o (re)conhecimento de diferentes modos de estar no mundo. Para tanto, apresento o desenho de Kopenawa como uma possibilidade tradutória em livro para os não indígenas das palavras da cosmologia yanomami advindas das imagens vistas em sonho pelo xamã. Como resultado, a discussão aproxima arte e tradução para lançar as bases para a constituição de uma prática tradutória integradora, coletiva e holística, situando as utupë como uma epistemologia alternativa e pensando o livro como um campo tradutório não restrito à palavra escrita e à forma de organização do pensamento ocidental.
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