Vigiar e cancelar: produção de subjetivações
DOI:
https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e109042%20Palabras clave:
cancelamento, exame, desempenho, hipermodernidade, subjetivaçãoResumen
Este artigo busca refletir teoricamente a respeito do fenômeno do cancelamento como dispositivo que emerge na sociedade hipermoderna ao passo em que seus efeitos estão configurados junto às lógicas da governamentalidade neoliberal. Propõe-se, a partir do referencial foucaultiano, ensaiar sobre o cancelamento e suas leituras a partir do conceito de disciplina, situando como a vigilância constante, a economia da visibilidade e a prática do exame produzem sujeitos disciplinados, que agem como empreendedores de si - um objeto a ser consumido, cujo valor depende da autopreservação performática individual. Assim, diz- se que o cancelamento não opera sobre o ato, mas sobre o sujeito que o pratica, afetando sua imagem, suas relações e sua subjetivação. Nessas condições, apontam-se tópicos como a espetacularização (Sibilia) e a fachada (Goffman) enquanto conceitos relevantes para situar o desempenho constantemente avaliado do sujeito, bem como o exame, e a permanência de certas práticas anteriores, por meio da análise histórica, produzem subjetivações nos sujeitos a partir da autocensura. Conclui-se que o cancelamento é um dispositivo que refina, na hipermodernidade, o exercício disciplinar do poder, ao mesmo tempo que produz sujeitos como instrumentos nos quais e por meio dos quais opera.
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