“Cabeça de Ozempic”: entre a medicalização e a natureza nas práticas material-discursivas sobre celebridades no X

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e109113

Palavras-chave:

Ozempic, Dispositivo da obesidade, Análise neomarialista, Femineja

Resumo

O presente artigo analisa como práticas discursivas nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), tratam o uso do medicamento Ozempic por celebridades. O texto discute a medicalização da gordura e o ideal de magreza dentro de uma sociedade salutarista, utilizando referenciais de Foucault e do neomaterialismo. O estudo foca-se no caso da cantora Maiara, acusada de ter a chamada “cabeça de Ozempic” e sua relação com o emagrecimento rápido e supostamente desproporcional. A análise mostra como os comentários nas redes reforçam uma moral do corpo “natural”, associando o uso de medicamentos à falsidade, loucura e anormalidade. Argumenta-se, para tanto, que as práticas discursivas atuais combinam vigilância digital, confissão e normatização da saúde e da estética. Nas conclusões, indica-se que o corpo das mulheres continua sendo um campo de controle moral e médico, com a contribuição histórica da farmacologia e, agora, intensificado sobremaneira com as tecnologias digitais.O fenômeno “cabeça de Ozempic” revela a tensão entre natureza, discurso, tecnologia e gênero na sociedade contemporânea, o que exige atentar para as agências distribuídas de agentes humanos e não-humanos.

Biografia do Autor

Pedro Paulo Venzon Filho, Universidade Federal de Santa Catarina

Doutorando no Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC.

Atilio Butturi Junior, Universidade Federal de Santa Catarina

Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPQ, doutor em Linguística (UFSC). Docente da UFSC. Realizou estágio pós-doutoral no IEL-UNICAMP (2014-2015) e na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (2017-2018). Professor do Programa de Pós-Graduação em Linguísitica da UFSC e do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC. Editor-chefe da Fórum Linguístico. Coordenador do Projeto É só mais uma crônica.

Luciana Patrícia Zucco, Universidade Federal de Santa Catarina

Professora do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC.

Referências

BARAD, K. Performatividade pós-humanista: para entender como a matéria chega à matéria. Trad. Thereza Rocha. Vazantes, v. 1, n. 1, 2017.

BENNET, J. Vibrant Matter: A Political Ecology of Things. London: Duke University Press Durham and London, 2010.

BUTTURI JUNIOR, A. A polivalência tática como teoria da resistência em Michel Foucault. In: BRAGA, A.; SÁ, I. de. (org.). Por uma microfísica das resistências: Michel Foucault e as lutas antiautoritárias da contemporaneidade. Campinas: Pontes, 2020. p. 21-46.

BUTTURI JUNIOR, A. Michel Foucault e as coisas sem paz. In: BUTTURI JUNIOR, A.; FERNANDES, C.; BRAGA, S. (org.). Cartografias do contemporâneo: crises de governamentalidade. Pontes, 2023, v. 1, p. 65-81.

BUTTURI JUNIOR, A. O onlife, a hermenêutica algorítmica de si e os usuários ostensivos da PrEP no gay Twitter do Brasil. Contrapontos (Online), v. 25, p. 296-314, 2025. Disponível em: https://periodicos.univali.br/index.php/rc/article/view/21415. 5 out. 2025. Acesso em: 5 out. 2025.

BUTTURI JUNIOR, A.; CAMOZZATO, NATHALIA MÜLLER . Prolegômenos a uma análise neomaterialista dos discursos. In: SEVERO, C. G.; BUSATO, M. (org.). Cosmopolítica e Linguagem. Araraquara: Letraria, 2023. p. 76-95.

CAPONI, S. Loucos e degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada. Rio de Janeiro: Scielo, Fiocruz, 2012.

COLLIER, S. J. Topologias de poder: a análise de Foucault sobre o governo político para além da “governamentalidade”. Rev. Bras. Ciênc. Polít. , v. 5, jul 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-33522011000100010. Acesso em: 10 out. 2025.

CRAWFORD, R. Salutarismo e medicalização da vida. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, v. 13, n. 1, 2019.

DE LAURETIS, T. A tecnologia do gênero. In: Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 206-242.

FAXINA, J. M. A obesidade como antinatureza: disciplina, biopolítica e doentização dos corpos. 2019. Dissertação – (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal da Fronteira Sul, 2019.

FLORIDI, L. (ed.). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected. London: Springer, 2015.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 5. ed. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 19. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2009.

FOUCAULT, M. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FOUCAULT, M. Crise da medicina e da anti-medicina, Verve, p. 167-194, 2010a.

GORDON, C. Governmental rationality: an introduction. In: BURCHELL, Graham; GORDON, Colin; MILLER, Peter (ed.). The Foucault effect: studies in governmentality. Chicago: University of Chicago Press, 1991.

HILUY, J. C et al. Os transtornos alimentares nos sistemas classificatórios atuais: DSM-5 e CID-11. Debates in psychiatry, p. 6-13, jul./set. 2019. Disponpivel em: https://share.google/gO1I0JLHeFuL8y4cz. Acesso em: 09/05/2025.

HUANG, X. Why you should (not) use semaglutide?”: Acritical discourse analysis on health professionals’videos of semaglutide for weight loss on Douyin. Social Science and Medicine, v. 382, out. 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0277953625006707. Acesso em: 09/07/2025.

KIRBY, V. Telling Flesh: The Substance of the Corporeal. London: Routledge & Taylor &. Francis Group. 1997.

LE BRETON, D. Antropologia do corpo e modernidade. Petrópolis: Vozes, 2011.

LEMKE, T. The Government of Things: Foucault and the New Materialisms. New Yor: New York University Press, 2021.

MITJAVILA, M. Apresentação. In: MITJAVILA,M. A medicalização do espaço social: objetos discursivos e tecnologias políticas na América Latina do século XX. SãoPaulo: LiberArs, 2022.

MOTA, A. O corpo sob as lentes neoliberais do presente. Medicina, saúde e cuidado de si In: ESTEVES, A.; ANDRADE, J. G.; AMARAL, I. (org.). Reflexões sobre a história do corpo. visões interdisciplinares. Braga: Universidade do Minho, 2024. p.94-107.

PRECIADO, Paul B. Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

PUAR, J. “Prefiro ser um ciborgue a ser uma deusa”: interseccionalidade, agenciamento e política afetiva. Meritum, v. 8, n. 2., jul./dez. 2013. Disponível em: https://doi.org/10.46560/meritum.v8i2.2171. Acesso em: 13 out. 2025.

SANT’ANNA, D. B. de. Gordos, magros e obesos: uma história do peso no Brasil. São Paulo: Estação Liberdade, 2016.

SANT’ANNA, D. B. Corpo e história. Cadernos de Subjetividade, São Paulo, Núcleo de Estudo e Pesquisa da Subjetividade, v. 2, 1995, p. 243-266, 1995.

SOARES; T.; PEREIRA, L. O salutarismo na cultura pop: performance biopolítica em relatos de celebridades no uso de Ozempic. Comunicação & Inovação, n. 6, e 20259801, jan./dez. 2025. Disponível em: https://seer.uscs.edu.br/index.php/revista_comunicacao_inovacao/article/view/9801. Acesso em: 10 abr. 2025.

STEFANUTO, J. R. R. Estética, agro-subjetivaçãoe dominação: o exemplo do ‘feminejo’ no brasil contemporâneo. Constelaciones. Revista De Teoría Crítica, n. 16, p. 315-333. Disponível: https://constelaciones-rtc.net/article/view/5497. Acesso em: 5 out. 2025.

Downloads

Publicado

11.12.2025

Edição

Seção

Dossiê: Vigiar e Punir: tecnologias do eu cinquenta anos depois. Organização: Dr. Atilio Butturi Junior