“Cabeça de Ozempic”: entre a medicalização e a natureza nas práticas material-discursivas sobre celebridades no X
DOI:
https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e109113Palabras clave:
Ozempic, Dispositivo da obesidade, Análise neomarialista, FeminejaResumen
O presente artigo analisa como práticas discursivas nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), tratam o uso do medicamento Ozempic por celebridades. O texto discute a medicalização da gordura e o ideal de magreza dentro de uma sociedade salutarista, utilizando referenciais de Foucault e do neomaterialismo. O estudo foca-se no caso da cantora Maiara, acusada de ter a chamada “cabeça de Ozempic” e sua relação com o emagrecimento rápido e supostamente desproporcional. A análise mostra como os comentários nas redes reforçam uma moral do corpo “natural”, associando o uso de medicamentos à falsidade, loucura e anormalidade. Argumenta-se, para tanto, que as práticas discursivas atuais combinam vigilância digital, confissão e normatização da saúde e da estética. Nas conclusões, indica-se que o corpo das mulheres continua sendo um campo de controle moral e médico, com a contribuição histórica da farmacologia e, agora, intensificado sobremaneira com as tecnologias digitais.O fenômeno “cabeça de Ozempic” revela a tensão entre natureza, discurso, tecnologia e gênero na sociedade contemporânea, o que exige atentar para as agências distribuídas de agentes humanos e não-humanos.
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