“Tinha que fazer tudo”: autoconstrução, informalidades e formação das redes de sobrevivência na Baixada Fluminense (1950-1990)
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-9222.2026.e110310Palavras-chave:
Baixada Fluminense, autoconstrução, história oralResumo
O presente artigo investiga, com base em entrevistas realizadas nos anos 1990, o processo de loteamento e ocupação proletária da Baixada Fluminense entre 1950 e 1990. Explora-se como trabalhadores migrantes, atraídos pela dinamização da economia carioca no pós-guerra, colonizaram essa antiga região agrícola, transformando-a em uma periferia urbana maciçamente expandida. Argumenta-se que essa ocupação se deu sob a lógica da inclusão perversa: a ausência de infraestrutura estatal e a pressão por moradia forçaram os migrantes a desenvolver estratégias próprias de resolução de problemas, como a autoconstrução da habitação e dos equipamentos urbanos e a formação de redes informais de sobrevivência. Longe de revelar passividade ou marginalidade, essas práticas forjaram identidades sui generis, pautadas na autonomia da propriedade e na agência coletiva diante da invisibilidade a que o Estado relegava esses moradores.
Referências
ALEXANDRE, Maria Lúcia Bezerra da Silva. Uma cidade, muitas letras e algumas memórias: a escrita da história iguaçuana entre as décadas de 1950 e 1970. Revista Periferia, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 1-17, 2014.
AZEVEDO, Sérgio de. Vinte e dois anos de política de habitação popular (1964-1986): criação, trajetória e extinção do BNH. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, p. 107-119, out./dez. 1988.
BATISTA, Allofs Daniel. Onze prefeitos em onze anos: o campo político iguaçuano nas páginas do Correio da Lavoura (1964-1975). 2014. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
BAYAT, Asef. From ‘Dangerous Classes’ to ‘Quiet Rebels’: Politics of the Urban Subaltern in the Global South. International Sociology, London, v. 15, n. 3, p. 533-557, Sept. 2000.
BOLAFFI, Gabriel. Habitação e urbanismo: o problema e o falso problema. Ensaios de Opinião, Rio de Janeiro, n. 2, p. 16-23, 1975.
CHINELLI, Filippina. Os loteamentos de periferia. In: VALLADARES, Lícia do Prado (org.). Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. p. 49-68.
CRIVELLO, Natalia Azevedo. A modernidade iguaçuana na terra dos laranjais. 2014. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2014.
ENNE, Ana Lúcia. “Lugar, meu amigo, é minha Baixada”: memória, representações sociais e identidade na Baixada Fluminense. 2002. Tese (Doutorado em Antropologia) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.
FERRO, Sérgio. O canteiro e o desenho. São Paulo: Projeto, 1979.
FISCHER, Brodwyn. A Poverty of Rights: Citizenship and Inequality in Twentieth-Century Rio de Janeiro. Stanford: Stanford University Press, 2008.
GEIGER, Pedro Pinchas; MESQUITA, Myriam Gomes Coelho. Estudos rurais da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: IBGE, 1956.
HOLSTON, James. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013 (2008).
KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
LIMA, Maria Helena Beozzo de. Em busca da casa própria: autoconstrução na periferia do Rio de Janeiro. In: VALLADARES, Lícia do Prado (org.). Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. p. 69-91.
LIMA, Maria Helena Beozzo de; ESTE, Maria das Graças Mangueira. Habitação popular: uma análise do processo de autoconstrução na Baixada Fluminense. Revista Brasileira de Estatística, Rio de Janeiro, v. 47, n. 187, p. 349-419, jul./set. 1986.
MARICATO, Ermínia. Autoconstrução, a arquitetura possível. In: MARICATO, Ermínia (org.). A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. 2. ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982 (1979). p. 71-93.
MARTINS, José de Souza. A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais. Petrópolis: Vozes, 2002.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70, 1988 (1925).
MONTEIRO, Linderval Augusto. A trajetória de Ilda do Prado Lameu: dinamismo popular e cidadania em uma periferia do Rio de Janeiro. História Oral, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 33-63, 2006.
MONTEIRO, Linderval Augusto. Para além do “voto de sangue”: escolhas populares e liderança política carismática na Baixada Fluminense. O caso Joca. Cadernos do Desenvolvimento Fluminense, Rio de Janeiro, n. 2, p. 121-152, jul. 2013.
MONTEIRO, Linderval Augusto. Retratos em movimento: vida política, dinamismo popular e cidadania na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2016.
MONTEIRO, Linderval Augusto. Andando no vale da sombra da morte: colonização proletária da Baixada Fluminense, Belford Roxo e o Governo Joca. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2021.
NASCIMENTO, Álvaro Pereira do; BEZERRA, Nielson Rosa (org.). De Iguassú à Baixada Fluminense: histórias de um território. Curitiba: Appris, 2019.
OLIVEIRA, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista. Estudos Cebrap, São Paulo, n. 2, p. 5-82, 1972.
PERLMAN, Janice E. O mito da marginalidade: favelas e política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977 (1976).
RALSTON, Tyler Andrew. Horror on the Periphery of Modernity: The Invention of the Baixada Fluminense and the Legendary Tenório Cavalcanti. The Americas, Cambridge, v. 76, n. 2, p. 267-298, Apr. 2019.
RIBEIRO, Luiz César de Queiroz. Dos cortiços aos condomínios fechados: as formas de produção da moradia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/UFRJ/IPPUR/FASE, 1997.
SALES, Jean; FORTES, Alexandre (org.). A Baixada Fluminense e a ditadura militar: movimentos sociais, repressão e poder local. 2. ed. rev. e ampl. Salvador: Sagga, 2022 (2016).
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos. Volviendo a pensar en “favelas” a causa de las periferias. Nueva Sociedad, Caracas, n. 30, p. 22-38, mayo/jun. 1977.
SEGADAS SOARES, Maria Therezinha de. Nova Iguaçu: absorção de uma célula urbana pelo grande Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, ano 24, n. 2, p. 155-241, abr./jun. 1962.
SIGAUD, Lygia. As vicissitudes do “Ensaio sobre o dom”. Mana, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 89-124, 1999.
SILVA, Bráulio Rodrigues da; MEDEIROS, Leonilde Servolo de. Memórias da luta pela terra na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.
SILVA, Percival Tavares da. Origem e trajetória do Movimento Amigos de Bairro em Nova Iguaçu (MAB) — 1974/1992. 1993. Dissertação (Mestrado em Educação) – Instituto de Estudos Avançados em Educação, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1993.
SIMÕES, Manoel Ricardo. A cidade estilhaçada: reestruturação econômica e emancipações municipais na Baixada Fluminense. Mesquita: Entorno, 2007.
VALLADARES, Lícia do Prado. A invenção da favela: do mito de origem a favela.com. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
WEFFORT, Francisco C. O populismo na política brasileira. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989 (1978).
ZALUAR, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. Rio de Janeiro: FGV, 2004.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Os autores cedem à Revista Mundos do Trabalho os direitos exclusivos de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Esta licença permite que terceiros remixem, adaptem e criem a partir do trabalho publicado, atribuindo o devido crédito de autoria e publicação inicial neste periódico. Os autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não exclusiva da versão do trabalho publicada neste periódico (ex.: publicar em repositório institucional, em site pessoal, publicar uma tradução, ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial neste periódico.



