O cortiço das mulheres: classe, raça e gênero em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e nos jornais contemporâneos (1888-1891)

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5007/1984-9222.2023.e94453

Palavras-chave:

O Cortiço, Aluísio Azevedo, Trabalho feminino, Criminalidade, Imprensa e literatura

Resumo

O artigo analisa fontes literárias e jornalísticas, com atenção especial para jornais que circularam no Rio de Janeiro em 1890, mesmo ano de publicação do romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Por meio do cruzamento de vários jornais pertencentes à “grande imprensa” ou “imprensa comercial”, verifiquei os posicionamentos, geralmente de homens brancos, diante de histórias de crimes que envolviam mulheres que exerciam o ofício de lavadeiras. Foi importante observar os títulos das notícias e a inserção de artifícios literários para a construção das narrativas jornalísticas. Desse modo, foi possível saber que, apesar de haver uma insistência pela divulgação de características associadas ao perigo que aquelas mulheres supostamente carregavam, a polifonia da imprensa prevalecia. Em conjunto com essa análise, o romance de Aluísio Azevedo serviu para evidenciar como um mesmo público poderia acessar narrativas que permitiam vislumbrar a vivência de mulheres pobres, trabalhadoras, imigrantes e descendentes de pessoas escravizadas. Eram mulheres e personagens que lutavam por direitos considerados justos, como a manutenção do trabalho, da família e da casa, mesmo quando a divulgação de uma visão positiva para elas não parecia ser o objetivo final daqueles homens de letras

Biografia do Autor

Daniela Magalhães da Silveira, Universidade Federal de Uberlândia

Doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professora do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, com atuação no curso de graduação em História, no ProfHistória e no PPGHI. 

Referências

ARIZA, Marília B. A. Mães infames, filhos venturosos: trabalho, pobreza, escravidão e emancipação no cotidiano de São Paulo (século XIX). São Paulo: Alameda, 2020.

BARRETO, Mariana Leão de Aquino. Gênero e raça no trabalho doméstico livre em Salvador em fins do século XIX: o surgimento de uma classe fatalmente segmentada. Revista Mundos do trabalho, Florianópolis, v. 10, n. 20, p. 81-102, 2019.

CANÁRIO, Ezequiel David do Amaral Canario. “É mais uma scena da escravidão”: suicídios de escravos na cidade do Recife, 1850-1888. 2011. Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2011.

CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.

CHALHOUB, Sidney; PINTO, Ana Flávia Magalhães. Pensadores negros – Pensadoras negras: Brasil, séculos XIX e XX. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino Traço, 2016.

CHALHOUB, Sidney; SILVA, Fernando Teixeira da. Sujeitos no imaginário acadêmico escravos e trabalhadores na historiografia brasileira desde os anos 1980. Cadernos AEL, v. 14, n. 26, p. 15-47, 2009.

CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. 2ª ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo. Apresentação. In: CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo (org.). A História Contada: capítulos de História Social da Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

COLLINS, Patricia Hill. Em direção a uma nova visão: raça, classe e gênero como categorias de análise e conexão. In: MORENO, Renata. Reflexões e práticas de transformação feminina. São Paulo: SOF, 2015.

DAMASCENO, Karine Teixeira. Luiza e suas crianças ingênuas: duelo judicial e relações de compadrio em Feira de Santana, Bahia, 1871-1888. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 43, n. 92, p. 155-176, 2023.

DAMASCENO, Karine Teixeira. Uma fugitiva em família em busca da liberdade na “Cidade da Feira”. Afro-Ásia, n. 64, p. 183-219, 2021.

DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol; SÁ, Magali Romero; GLICK, Thomas (org.). A recepção do darwinismo no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003.

ENGEL, Magali Gouveia. Paixão, crime e relações de gênero (Rio de Janeiro, 1890-1930). Topoi, Rio de Janeiro, n. 1, p. 153-177, 2000.

ESTEVES, Martha de Abreu. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

FARIAS, Juliana Barreto. Mercados Minas: Africanos ocidentais na praça do mercado do Rio de Janeiro (1830-1890). Rio de Janeiro: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2015.

FERREIRA, Jackson. “Por hoje se acaba a lida": suicídio escravo na Bahia (1850-1888). Afro-Ásia, n. 31, p. 197-234, 2004.

FIGUEIREDO, Mônica. Sob o sol tropical: o imigrante português no Rio de Janeiro de Aluízio Azevedo. ALEA, Rio de Janeiro, v. 20/3, p. 239-256, set.-dez. 2018.

GARZONI, Lerice. Vagabundas e conhecidas: Novos olhares sobre a polícia republicana (Rio de Janeiro, início século XX). 2007. Dissertação (Mestrado em História) — Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.

HERTZMAN, Marc. Diferenças fatais: suicídio, raça e trabalho forçado nas Américas. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 11, p. 1-38, 2019.

JODAS, Amanda Servidoni. Nas entrelinhas do “Cortiço”: moralidade e (des)ordem pública em Aluísio Azevedo. 2016. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) — Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.

KALIFA, Dominique. A tinta e o sangue: narrativas sobre crimes e sociedade na Belle Époque. São Paulo: Editora da Unesp, 2019.

KALIFA, Dominique. Jornalistas, romancistas e literatura criminal no século XIX: o exemplo de Georges Grison. In: LUSTOSA, Isabel; OLIVIERI-GODET, Rita (org.). Imprensa, história e literatura: o Jornalista-Escritor. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa: 7Letras, 2021. V. 2.

MACHADO, Maria Helena; BRITO, Luciana da Cruz; VIANA, Iamara da Silva; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Ventres livres? Gênero, maternidade e legislação. São Paulo: Editora da Unesp, 2021.

MCCLINTOCK, Anne. Couro Imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo: vida e obra (1857-1913). 2ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional: Garamond, 2013.

MORRISON, Toni. A origem dos outros: Seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

NASCIMENTO, Álvaro Pereira. Trabalhadores negros e o ‘paradigma da ausência': contribuições à História Social do Trabalho no Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 29, n. 59, p. 607-626, setembro-dezembro 2016.

PEÇANHA, Natália Batista. Que liberdade? Uma análise da criminalização das servidoras domésticas cariocas (1880-1930). Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 32, n. 66, p. 287-306, 2019.

PEÇANHA, Natalia Batista. “Precisa-se de uma criada estrangeira ou nacional para todo o serviço de casa”: cotidiano e agências de servidoras/es domésticas/os no mundo do trabalho carioca (1880-1930). 2018. Tese (Doutorado em História) — Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2018.

PEREIRA, Cristiana Schettini. Exploração, gênero e circuitos sul-americanos nos processos de expulsão de estrangeiros (1907-1920). Tempo, Rio de Janeiro, 18 (33), p. 51-73, 2012.

PORTO, Ana Gomes. Crime em letra de forma: sangue, gatunagem e um misterioso esqueleto na imprensa do prelúdio republicano. 2003. Dissertação (Mestrado em História) — Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.

RINALDI, Alessandra de Andrade. A sexualização do crime no Brasil: um estudo sobre criminalidade feminina no contexto de relações amorosas (1870-1940). Rio de Janeiro: Mauad, 2015.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SAMPAIO, Gabriela dos Reis. Nas trincheiras da cura: as diferentes medicinas no Rio de Janeiro imperial. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

SILVA, Maciel Henrique Carneiro da. Nem mãe preta, nem negra fulô: Histórias de trabalhadoras domésticas em Recife e Salvador. Jundiaí: Paco Editorial, 2016.

SILVEIRA, Daniela Magalhães da. Fábrica de contos: ciência e literatura em Machado de Assis. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

SOUZA, Flavia Fernandes de. Criados, escravos e empregados: o serviço doméstico e seus trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro (1850-1920). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2019.

SOUZA, Flavia Fernandes de. Criados, escravos e empregados: o serviço doméstico e seus trabalhadores na construção da modernidade (Cidade do Rio de Janeiro, 1850-1920). 2017. Tese (Doutorado em História) — Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017.

SOUZA, Flavia Fernandes de. Para casa de família e mais serviços: o trabalho doméstico na cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX. 2009. Dissertação (Mestrado em História) — Faculdade de Formação de Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2009.

TELLES, Lorena Féres da Silva. Teresa Benguela e Felipa Crioula estavam grávidas: maternidade e escravidão no Rio de Janeiro (1830-1888). São Paulo: Editora Unifesp, 2022.

Downloads

Publicado

2023-10-06

Como Citar

SILVEIRA, Daniela Magalhães da. O cortiço das mulheres: classe, raça e gênero em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e nos jornais contemporâneos (1888-1891). Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 15, p. 1–21, 2023. DOI: 10.5007/1984-9222.2023.e94453. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/94453. Acesso em: 13 jun. 2024.

Edição

Seção

Dossiê: Relações raciais e racismo nos mundos do trabalho

Artigos Semelhantes

<< < 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.