Esculpindo “trabalhadoras respeitáveis”: mulheres negras e pobres e a educação escolar no pós-abolição
DOI:
https://doi.org/10.5007/1984-9222.2025.e106730Palabras clave:
gênero, raça, classe, escolarização, pós-aboliçãoResumen
O artigo analisa um projeto educativo-assistencial de educação escolarizada formal para mulheres trabalhadoras e seus filhos e filhas em Juiz de Fora, Minas Gerais, nas primeiras décadas do século XX. Destaca como essas mulheres – em sua maioria negras – articularam formas de vida e trabalho a partir de concepções próprias de feminilidade, domesticidade, maternidade e direitos. Investiga, então, as experiências vividas nas interseções entre condições estruturais, relações sociais e escolhas individuais, bem como os modos pelos quais raça, gênero e classe produziram efeitos sobre as trajetórias dessas mulheres. Destaca, por fim, que o status simbólico que a ideia do indivíduo escolarizado poderia oferecer às mulheres negras e pobres pode ter funcionado como um mecanismo político que combinava – com alguma simetria – noções hegemônicas de domesticidade com trabalho remunerado e com a vida pública, redefinindo, assim, o modo como elas poderiam interpretar e vivenciar essas dimensões sociais de diferentes formas e, sempre que possível, a partir dos seus próprios termos.
Citas
ABREU, Martha. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque. 2. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2024.
ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
ARANTES, Adlene Silva. Discursos sobre eugenia, higienismo e racialização nas escolas primárias pernambucanas (1918-1938). In: FONSECA, Marcus Vinicius; BARROS, Surya Aaronovich Pombo de (orgs.). A história da educação dos negros no Brasil. Niterói: EDUFF, 2016, p. 363-394.
CARNEIRO, Deivy Ferreira. Mulheres honestas e que a todos tratam bem: relações de gênero e violência verbal em Juiz de Fora (Minas Gerais). Ler História, [S. l.], n. 62, p. 87-99, 2012.
CARRA, Patrícia Rodrigues. Escola mista? Coeducação? Um desafio histórico para a educação de meninos e meninas. Cadernos de História da Educação, [S. l.], v. 18, n. 2, p. 548-570, 2019.
CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da UNICAMP, 2000.
CHAMON, Carla Simone; FARIA FILHO, Luciano Mendes. O olhar comparativo: Estevão de Oliveira e os grupos escolares em Minas, no Rio e em São Paulo. Revista Brasileira de História da Educação, [S. l.], v. 10, n. 1, p. 17-41, 2010.
COHN, Maria Aparecida Figueiredo. Do apito das fábricas ao toque dos sinos no Grupo Escolar Estevam de Oliveira (1914-1946). Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008.
COSTA, Ana Luiza Jesus. Educação e formação da classe trabalhadora no Rio de Janeiro entre as últimas décadas do século XIX e os primeiros anos do século XX. Revista Brasileira de História da Educação, [S. l.], v. 16, n. 4, p. 123-154, 2016.
CRUZ, Mariléia dos Santos. Erudição e racismo na trajetória ascendente de uma família negra do Maranhão. Revista Brasileira de História da Educação, [S. l.], v. 22, n. 1, p. e211, 2022.
DÁVILA, Jerry. Diploma de brancura: política social e racial no Brasil, 1917-1945. São Paulo: Editora da UNESP, 2006.
ENGEL, Magali Gouveia. Os intelectuais e a Liga de Defesa Nacional: entre a eugenia e o sanitarismo? (RJ, 1916-1933). Intellèctus, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1, p. 1-30, 2012.
FARIA FILHO, Luciano Mendes de. O processo de escolarização em Minas Gerais: questões teórico-metodológicas e perspectivas de pesquisa. In: FONSECA, Thais Nivia de Lima e; VEIGA, Cynthia Greive (orgs.). História e historiografia da educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2008, p. 77-97.
GONÇALVES, Wellington Carlos. Entre palcos, orquestras e partituras: trajetórias de Duque Bicalho em Juiz de Fora, no pós-abolição. 2023. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2023.
JOSHI, Chitra. Além da polêmica do provedor: mulheres, trabalho e história do trabalho. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 1, n. 2, p. 147-170, 2009.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Os jardins de infância e as escolas maternais de São Paulo no início da República. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 64, p. 57-60, 1988.
KUHLMANN JR., Moysés. A circulação das ideias sobre a educação das crianças: Brasil, início do século XX. In: FREITAS, Marcos Cezar de; KUHLMANN JR., Moysés (orgs.). Os intelectuais na história da infância. São Paulo: Cortez, 2002, p. 459-503.
KUHLMANN JR., Moysés. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação, 1998.
LANA, Vanessa. Uma associação científica no interior das Gerais: a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora (1889-1908). Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, Rio de Janeiro, 2006.
LIMEIRA, Aline de Morais. O comércio da instrução no século XIX: colégios particulares, propagandas e subvenções públicas. 2010. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.
MIGNOT, Ana Chrystina Venancio; GONDRA, José Gonçalves (orgs.). Viagens Pedagógicas. São Paulo: Cortez, 2007.
MONÇÃO, Vinicius de Moraes. Trajetórias da família Loureiro de Andrade na educação da infância: um debate transnacional. In: VIDAL, Diana Gonçalves (org.). Sujeitos e artefatos: territórios de uma história transnacional da educação. Belo Horizonte: Fino Traço, 2020, p. 23-50.
MÜLLER, Maria Lucia Rodrigues. A cor da escola: imagens da Primeira República. Cuiabá: Entrelinhas; Editora da UFMT, 2008.
NAKAYAMA, Marina Fernandes Braga. Divertimentos e tempo livre: experiências dos trabalhadores em Juiz de Fora (1900-1924). Tese (Doutorado em Estudos do Lazer) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.
OLIVEIRA, Luís Eduardo de. Os trabalhadores e a cidade: a formação do proletariado de Juiz de Fora e suas lutas por direitos (1877-1920). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
OLIVEIRA, Paloma Rezende de. Criança, “futuro da nação”, “célula do vício”: políticas de assistência à infância em Juiz de Fora/MG na transição Império/República. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.
PASSOS, Daniela Ramos dos; DUARTE, Renata Campos; PATROCÍNIO, Isabelle Guedes. Mulheres, história do trabalho e educação: a representação feminina por meio do jornal O Labor (1905). In: PASSOS, Daniela Ramos dos; ANDRADE, Ana Paula; GUEDES, Rayane Silva (orgs.). Ser mulher no século XXI: desafios, conquistas e vivências. Belo Horizonte: Editora da UEMG, 2023, p. 37-58.
PORTELA, Daniela Fagundes. A trajetória profissional da educadora Anália Emília Franco em São Paulo (1853-1919). 2016. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.
RIBEIRO, Jonatas Roque. “Distinta e competente educadora”: educação, cidadania e raça na trajetória de uma intelectual negra. Temporalidades, Belo Horizonte, v. 11, n. 2, p. 111-140, 2019.
ROCHA, Heloísa Helena Pimenta. A higienização dos costumes: educação escolar e saúde no projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925). Campinas: Mercado de Letras, 2003.
ROCHA, Marlos (org.). A “longa” constituição da modernidade educacional brasileira: experiências educacionais de Minas Gerais e capital da República (final do século XIX até década de 1930). Curitiba: CRV, 2019.
ROCHA, Marlos. O grupo escolar e a formação do direito social à educação: ensaio interpretativo. Educação em Foco, [S. l.], v. 23, n. 2, p. 408-429, 2018.
RODRIGUES, Maysa Gomes. Sob o céu de outra pátria: imigrantes e educação em Juiz de Fora e Belo Horizonte, Minas Gerais (1888-1912). Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2009.
SANTOS, Taina Silva. Histórias de mulheres negras no mercado de trabalho: caminhos trilhados e trajetos que ainda podem ser percorridos. In: SILVA, Lucia Helena Oliveira; RODRIGUES, Jaime; SOUZA, Airton Silva (orgs.). Escravidão e liberdade: estudos sobre gênero & corpo, memória & trabalho. São Paulo: FFLCH, 2023, p. 217-238.
SANTOS, Ynaê Lopes dos; NASCIMENTO, Álvaro Pereira. Pós-abolição. In: RIOS, Flávia; SANTOS, Marcio André dos; RATTS, Alex (orgs.). Dicionário das relações étnico-raciais contemporâneas. São Paulo: Perspectiva, 2023, p. 270-274.
SCHETTINI, Cristiana; POPINIGIS, Fabiane. História Social do Trabalho e perspectiva de gênero no Brasil. Almanack, [S. l.], n. 38, p. 1-29, 2024.
SCHUELER, Alessandra F. M. de. Educar em família: o Colégio Amorim Carvalho na Corte Imperial (1882-1889). Revista HISTEDBR Online, Campinas, n. 27, p. 65-77, 2007.
SCHUELER, Alessandra; MAC CORD, Marcelo. História Social e História da Educação: as contribuições de Edward Thompson. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes de et ali. (orgs.). Nas dobras de Clio: História Social e História da Educação. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014, p. 53-82.
SCHWARCZ, Lilia. Imagens da branquitude: a presença da ausência. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
SILVA, Alexandra Lima da. Ideias em movimento: viagens como horizonte na historiografia da educação. Roteiro, [S. l.], ed. especial, p. 109-126, 2013.
SILVA, Luara dos Santos. Histórias de professoras negras no Rio de Janeiro: experiências e tensões de classe, raça e gênero (1870-1920). 2022. Tese (Doutorado em História) – Instituto de História, Universidade Federal Fluminense, 2022.
SILVA, Luara dos Santos. O nosso feminismo e a arte de ensinar crianças: professoras primárias entre práticas de controle e agências no Brasil Republicano (1900-1920). In: CARLONI, Karla; MAGALHÃES, Lívia (orgs.). Mulheres no Brasil republicano. Curitiba: CRV, 2021, p. 57-74.
SILVA, Maíra Carvalho Carneiro. Lugar de trabalhador é na área de serviço: moradia popular em Juiz de Fora (1892-1930). Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008.
SILVA, Renata Lutiene da. Famílias, direito, normas e poder: os diversos relacionamentos familiares em Juiz de Fora, MG (1890-1920). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de São João del Rei, São João del Rei, 2010.
VAGO, Tarcísio Mauro. Da ortopedia à eficiência dos corpos: a Gymnastica e as exigências da “vida moderna” (Minas Gerais, 1906-1930). Movimento, [S. l.], v. 10, n. 3, p. 77-97, 2004.
VEIGA, Cynthia Greive. Educação racista e sentidos de inferioridade nas políticas educacionais latino-americanas (séculos XIX-XX). Cadernos de Pesquisa, São Luís/MA, v. 32, n. 1, p. 1-27, 2025.
VEIGA, Cynthia Greive. Infância subalterna: dimensões históricas das desigualdades nas condições de ser criança (Brasil, primeiras décadas republicanas). Perspectiva, [S. l.], v. 37, n. 3, p. 767-790, 2019.
VEIGA, Cynthia Greive. Racismo, colonialidade e (des) democracia na história da educação latino-americana. Anuario de Historia de la Educación, [S. l.], v. 25, n. 1, p. 12-31, 2024.
VIDAL, Diana Gonçalves; GVIRTZ, Silvina. O ensino da escrita e a conformação da modernidade escolar: Brasil e Argentina, 1880-1940. Revista Brasileira de Educação, [S. l.], n. 8, p. 13-30, 1998.
VILLELA, Heloisa de Oliveira Santos. Uma família de educadores “de cor”: magistério, redes de sociabilidade e projetos abolicionistas na capital fluminense (1860-1910). In: VENANCIO, Giselle; VIANNA, Larissa; SECRETO, Maria Verónica (orgs.). Sujeitos na história: perspectivas e abordagens. Niterói: EDUFF, 2017, p. 403-432.
WERLE, Flávia Obino Corrêa. Práticas de gestão e feminização do magistério. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 126, p. 609-634, 2005.
YAZBECK, Dalva. Formando os bons trabalhadores: os primeiros grupos escolares em Juiz de Fora, Minas Gerais. Cadernos de História da Educação, [S. l.], v. 2, p. 99-105, 2008.
Descargas
Publicado
Cómo citar
Número
Sección
Licencia
Los autores ceden a la Revista Mundos del Trabajo los derechos exclusivos de primera publicación, con el trabajo simultáneamente licenciado bajo la Licencia Creative Commons Attribution (CC BY) 4.0 International. Esta licencia permite que terceros remueven, adapten y creen a partir del trabajo publicado, asignando el debido crédito de autoría y publicación inicial en este periódico. Los autores tienen autorización para asumir contratos adicionales por separado, para distribución no exclusiva de la versión del trabajo publicada en este periódico (por ejemplo, publicar en repositorio institucional, en sitio personal, publicar una traducción, o como capítulo de libro), con reconocimiento de autoría y publicación inicial en este periódico.



